Um cenário polarizado

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um cenário polarizado, n. 484, 28 jan. 2006.

 

 

A controvérsia em torno do fim ou não da verticalização eleitoral, que impõe aos partidos coligados nacionalmente a mesma coalizão nos estados, mascara os esforços de várias forças políticas regionais para escapar da crescente polarização federal.

Aparentemente, isso não deveria acontecer. Afinal, a direita se esforçou para demonstrar que o governo Lula estava tendo algum sucesso na economia justamente por dar continuidade à política anterior. Essa impressão, propalada pelos tucanos e pefelistas, era reforçada tanto pelos setores da esquerda que qualificavam o governo Lula de neoliberal e pelo descontentamento de setores sociais prejudicados pela política monetária de transferência de rendas, quanto pelo fato de o novo governo não ter feito seu acerto de contas contra a quebradeira imposta ao país por FHC.

Então, seria lógico esperar que a direita se aliasse ao governo, ou o cooptasse. Na prática, porém, ocorreu o inverso. A direita não vacilou em mudar seu discurso e passar à ofensiva, procurando derrubar o governo e destruir o PT, embora as falcatruas cometidas por ela nos oito anos de governo FHC tenham deixado seu telhado muito vulnerável (o valerioduto do grupo de ex-dirigentes petistas é fichinha diante da privataria tucano-pefelista) e a luta política pudesse descambar para o vale tudo.

Do ponto de vista político, ou essa direita enlouquecera, ao procurar matar um pretenso aliado, ou ela mudara de natureza, transformando-se em seu contrário à esquerda, ou o diagnóstico sobre o neoliberalismo do PT e do governo Lula precisa ser revisto. Se o PSDB e o PFL continuam à direita, eles na verdade não enlouqueceram, nem mudaram de natureza. E, naturalmente, continuam tentando destruir o inimigo que consideram principal, representado pelo PT, Lula e seus principais aliados, PSB e PCdoB.

Mesmo porque, FHC, Serra, Alckmin, ACM, Jereissati etc.etc. são frontalmente contrários ao tratamento que o PT e o governo Lula dão, embora às vezes de forma vacilante, a algumas das principais heranças do desastre neoliberal – o sucateamento do Estado, as baixas taxas de poupança e de investimento, o crescente desemprego, a criminalização dos movimentos sociais, a terceirização dos serviços públicos e sociais, a socialização dos custos sociais e a privatização das rendas públicas.

Nessas condições, a disputa tende a se polarizar entre esses campos políticos. Mas há setores da esquerda que acreditam tratar-se de uma disputa dentro do mesmo campo. Para eles, quem quer que vença, vai manter a política neoliberal. Não acreditam que o PSDB e o PFL, retornando ao governo federal, sejam capazes de retomar as privatizações das estatais, criminalizar o MST e movimentos sociais, terceirizar ainda mais os serviços públicos, e por aí afora. Talvez para comprovar isso, preferem que Lula e o PT sejam derrotados. Não será a primeira vez que apostas desse tipo acontecem.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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