Um banho de auto-estima

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um banho de auto-estima, n. 303, 06 jul. 2002.

 

 

O Brasil continua sendo persistentemente empurrado no rumo da tragédia argentina. Os sinais de descontrole da economia são cada dia mais evidentes, apesar dos esforços do governo FHC para esconder os fatos reais e evitar a mudança de orientação de sua política. Para complicar, a estrutura corporativa capitalista dos EUA e de outras potências mundiais está sendo corroída por escândalos que, reconhecem pensadores liberais, podem colocar em risco o próprio sistema. E, portanto, levar de roldão todos os países que, como o Brasil, foram atrelados a tal sistema pela suposição de governantes, como FHC, Serra e Malan, de que, com isso, estariam ingressando na modernidade do primeiro mundo.

Os cenários que nós, os brasileiros, temos pela frente, não são róseos. Ainda mais que as oligarquias que há muito dominam nosso país não estão dispostas a permitir a vitória de um projeto democrático e popular na Presidência da República. Era previsível, assim, que elas usariam o aparelho de Estado para tentar desestabilizar a candidatura Lula, mesmo correndo o perigo de repetir episódios como o incêndio do Reichstag, pelos partidários de Hitler, o escândalo Watergate, pelos partidários de Nixon, ou o terrorismo do Rio Centro, pelos órgãos da repressão política ditatorial. Se elas já haviam se utilizado desses métodos fascistas contra uma antiga aliada, como Roseana Sarney, por que iriam deter-se diante de um adversário-inimigo da dimensão de Lula e do PT?

A utilização, pela polícia federal, de expedientes inconfessáveis para espionar Lula e dirigentes do PT, aproveitando-se seja da CPI do narcotráfico, seja do assassinato do prefeito Celso Daniel, é apenas a ponta do iceberg de golpes sujos que os setores dominantes já armaram contra a campanha popular. O processo montado sigilosamente (embora a mídia governamental estivesse a par de tudo) a respeito de possíveis irregularidades na prefeitura de Santo André, mostra tão somente a presteza de uma parte da polícia e da promotoria pública quando se trata de enredar inimigos políticos, mesmo baseada em indícios inconsistentes e em práticas ilegais.

Por tudo isso, a pronta resposta do PT para instaurar a CPI sobre as possíveis irregularidades na prefeitura de Santo André, e sua decisão de tornar públicas suas sessões, são sinais de que esse partido não se intimida diante de prováveis esqueletos enfiados em baús e armários e está pronto para cortar na carne se houver parte podre a extrair. Ao contrário do que podiam estar supondo os articuladores dos golpes baixos contra Lula e o PT, estas armações podem haver acordado aquela parte dos petistas que ainda acreditavam nas promessas tucanas de uma campanha de alto nível, baseada em programas e propostas.

É verdade que o PT não pode escorregar na baixaria. Mas não pode se abater, nem se deixar enlamear, ainda mais agora que os brasileiros tomaram um banho de auto-estima com a conquista do penta e certamente vão optar por um presidente e uma equipe de governo que mudem tudo o que anda errado e enfrentem com destemor os desafios colocados diante do país pelos sombrios cenários internacionais e pelas políticas destrutivas de FHC e companhia.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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