Um ano de perplexidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um ano de perplexidade, n. 531, 23 dez. 2006.

 

 

Ao levar a decisão eleitoral para o segundo turno, a direita e a ultra-esquerda conseguiram abrir as comportas para a compreensão daquilo que estava óbvio desde o início. Nas eleições de 2006, não estavam em jogo os erros do PT e do governo Lula durante o primeiro mandato, mas o retorno da política realmente neoliberal, de privatizações do patrimônio público restante, fim das políticas sociais, criminalização dos movimentos sociais e reversão da política externa independente.

2006 foi um ano de perplexidade. A esquerda, naquela parte representada pelo PT e seus aliados, parecia desmoralizada e batida. E, naquela parte representada pelo PSOL e correntes semelhantes, parecia disposta a enterrar a outra parte com mais vigor do que a própria direita. Havia a impressão de uma profunda decepção popular em relação ao governo Lula que, além de supostamente incapaz de romper com a política neoliberal, viu alguns de seus membros envolvidos em denúncias de corrupção.

Diante disso, a direita cifrou suas esperanças na continuidade dos ataques ao propalado comportamento antiético do PT e do governo, prosseguindo o sangramento realizado durante quase todo o ano de 2005. Já conseguira reunir a seu redor a maior parte do empresariado e da mídia, e contava com a força das denúncias dos setores críticos da esquerda, para livrar o país da raça petista para sempre.

Parcelas do movimento popular, também críticos do governo Lula e do PT, pareciam vacilar entre apoiar a direita e os setores da esquerda antipetista, ou manter uma posição de neutralidade frente aos partidos e ao governo. Vacilação que parece haver aumentado durante a primeira fase eleitoral, despolitizada tanto pelos esforços concentrados da mídia direitista, quanto pelos erros políticos de alguns segmentos poderosos do PT. Embora setores petistas tenham se esforçado para introduzir a discussão dos projetos em disputa, no primeiro turno prevaleceu a linha despolitizante da direita (moralidade pública) e da ultra-esquerda (moralidade pública com propostas pretensamente socializantes, e ataques a um suposto esgotamento da democracia burguesa).

Ao levar a decisão eleitoral para o segundo turno, a direita e a ultra-esquerda, já então com a cumplicidade aloprada de segmentos do PT, que não tiraram lição da crise que haviam gerado em 2005, conseguiram abrir as comportas para a compreensão daquilo que estava óbvio desde o início. Nas eleições de 2006, não estavam em jogo os erros do PT e do governo Lula durante o primeiro mandato, mas o retorno da política realmente neoliberal, de privatizações do patrimônio público restante, fim das políticas sociais, criminalização dos movimentos sociais e reversão da política externa independente. O que antes parecia levemente polarizado despontou, então, como fortemente polarizado.

A partir do momento em que se tornou mais do que evidente que as duas candidaturas não eram iguais e indiferentes, era inevitável que a maior parte da esquerda e dos movimentos populares colocasse de lado as vacilações, e saísse em campo para promover a disputa de projetos políticos e clarificar os interesses de classe divergentes. Assim, ao invés de serem enterrados, o PT e seus principais aliados saíram reforçados das eleições. A decepção popular com Lula, embora possa ser verdadeira em alguns segmentos, não existia entre as grandes camadas pobres da população. Os movimento populares comprovaram que a participação traz mais benefícios do que a neutralidade. A ultra-esquerda continuou onde estava. E a direita, embora com algumas vitórias parciais importantes, sofreu uma derrota estratégica e viu o PFL definhar, não só na Bahia, mas em quase todo o país. Muita gente ainda está perplexa.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *