Tiros contra quem?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tiros contra quem?, n. 347, 24 mai. 2003.

 

 

Em artigo de seu número de 21 de maio, assinado por Ronaldo França, a revista Veja disparou contra o presidente do BNDES, Carlos Lessa, e outros intelectuais, acusando-os de estar cavando uma trincheira e atirando contra a política econômica do governo. Seu alvo: um curso de pós-graduação em desenvolvimento econômico e social para os técnicos da instituição, ministrado, como diz pejorativamente, pela “turma da economista Maria da Conceição Tavares”.

Segundo a revista, trata-se “de um curso cujo conteúdo entra em choque com o receituário da política econômica defendida pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci”. E dispara: “É surpreendente que uma instituição governamental da importância estratégica do BNDES gaste dinheiro na formação de seus quadros para recheá-los com uma visão econômica solitária e defasada, porque intervencionista e em descompasso com a estabilidade fiscal”.

Embora Lessa tenha assegurado que “O curso vai apresentar as visões e as controvérsias na matéria do desenvolvimento”, a revista reitera que as “visões” do curso estão centradas nas “críticas à geração de superávits primários” e nas teorias de que “o governo pode e deve ter déficit fiscal”, de que é preciso intervir nos bancos e realizar “uma abordagem mais voltada para a inclusão social”. Reclama que “os professores do curso”, “todos amigos de Lessa”, “têm uma visão monolítica sobre o que sejam as necessidades brasileiras”, ao invés de “visões mais em linha com o que pensa o resto do mundo”. E conclui que o “novo BNDES do governo Lula coloca-se contra o modelo econômico na sua essência.”

Veja nunca levantou a voz para criticar a “visão monolítica neoliberal” da diretoria do BNDES sob FHC. Jamais atacou o brutal déficit fiscal norte-americano, que injeta dinheiro na economia por meio da produção armamentista. Em tempo algum defendeu “as necessidades brasileiras”. Ainda considera que “as visões mais em linha com o que pensa o resto do mundo” são aquelas que estiveram em vigor durante o predomínio neoliberal e que foram derrotadas nas urnas. E não explica qual seria a “essência” do modelo econômico contra o qual o “novo BNDES” se rebela.

Diante disso, sobram algumas hipóteses. Veja quis manter a defesa “solitária e defasada” do neoliberalismo e reavivar suas teses, pescando nas águas turvas da transição da antiga política econômica para a nova política pretendida por Lula. Ou Veja quis criar cizânia no governo, passando-se por protetora do governo Lula contra a suposta transformação do BNDES num “reduto de resistência à política econômica”. Ou Veja pretendeu apenas vingar-se de alguma “resistência” à sua participação no “oceano de dinheiro” que o banco controla.

Como a nova diretoria do BNDES tem se empenhado em destinar os 34 bilhões de reais da instituição para o crescimento econômico com inclusão social, sabemos com transparência contra quem os tiros de Lessa se destinam. Mas cabe perguntar: em qual das hipóteses acima Veja se encaixa?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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