Tendência perigosa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tendência perigosa, n. 470, 15 out. 2005.

 

 

A tendência de alguns setores do campo majoritário do PT em julgar os dirigentes envolvidos com caixa 2 e tráfico de influência apenas após o resultado das investigações das comissões parlamentares de inquérito e de ética é perigosa.

Em primeiro lugar, porque ela iguala os erros políticos às delinqüências que eles porventura tenham praticado. O julgamento a ser feito pelo PT é o da responsabilidade política pela crise em que mergulharam o partido. No caso, tanto faz que tenha sido em virtude de caixa 2, tráfico de influência ou erros de conduta política. Os dirigentes responsáveis pela crise devem ser punidos politicamente pelo fato de haverem jogado o partido na maior crise de sua história, por ação ou omissão. Isso é chave, do ponto de vista partidário.

Os graus dessa punição política podem variar, dependendo da responsabilidade partidária de cada um, e de acordo com o que prevê o estatuto partidário. Quanto maior esse nível, maior o grau da punição. Se o PT não conseguir realizar esse julgamento político, separando-o num primeiro momento dos demais aspectos da crise, a opinião pública aumentará sua dúvida quanto à capacidade de autocrítica e de revitalização e reorganização do partido.

Em segundo lugar, porque essa tendência subordina totalmente o partido aos ditames da disputa no parlamento. Dependendo da correlação momentânea de forças nessa instituição, está fadado a aceitar todas as suas decisões, inclusive as injustas, o que é um erro. O PT deve utilizar seus próprios mecanismos para investigar a participação de seus membros em atos de delinqüência, mesmo que possa aproveitar-se das evidências e provas produzidas pelas comissões parlamentares.

Assim, além de realizar o processo e o julgamento político pela eclosão da crise, deve fazer seu próprio processo e julgamento sobre os atos de delinqüência, seja para aumentar as penalidades políticas, seja para adotar medidas claras de defesa daqueles que estão sendo injustiçados.

A opinião pública não entende por que Delúbio Soares ainda não foi expulso, já que é confesso sobre os atos que cometeu. Também não entende por que os demais envolvidos não foram submetidos à comissão de ética do PT, e se negam a tal procedimento. Afinal, isso não representa qualquer pré-julgamento. E é o mínimo que um partido sério deve fazer quando há evidências ou acusações a militantes, dirigentes ou não, de envolvimento em irregularidades de qualquer natureza.

Se não se desvencilhar dessa tendência perigosa, o PT corre o risco de manter acesa a brasa que a direita quer soprar para alimentar a crise durante todo o ano de 2006.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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