Tempos estranhos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tempos estranhos, n. 147, 15 jun. 1999.

 

Tempos estranhos estes. Vinte anos após a anistia parcial e conexa e dezoito após o atentato do Rio Centro, a justiça militar decide reabrir o caso para investigar o que todo mundo sabia: os terroristas eram militares. Ao mesmo tempo, FHC decide colocar à frente da Polícia Federal um torturador, sob a alegação de que não há provas conclusivas contra o delegado Campelo. O mesmo tipo de argumento utilizado pelo coronel Job Lorena e pelo juiz militar para arquivarem o caso Rio Centro.

Tempos estranhos estes. O governador Covas sustenta que não há tucanos sem honra e sem ética e empenha as suas próprias na defesa de FHC e equipe. Ao mesmo tempo, os grampos continuam esparramando respingos sujos sobre Mendonção e companhia e a CPI do Judiciário esbarra em relações estranhas de Eduardo Jorge, coordenador da campanha de FHC e ex-secretário-geral da presidência da República, com o senador Luiz Estêvão e o juiz Nicolau dos Santos Neto, envolvidos na corrupção milionária do TRT-São Paulo. Além disso, as evidências mais do que públicas da ação governamental a favor de bancos, empresas estrangeiras e rataiada diversa demonstram que há tucanos (e aliados) cuja honra e cuja ética são próprias de quadrilhas financeiras transnacionais.

Tempos estranhos estes. O presidente resolveu voltar à condição de mestre-sala e dar pito em seus ministros, como se fossem alunos relapsos e encrenqueiros. Não quer mais briga interna. Ao mesmo tempo, continua se utilizando do fisiologismo como instrumento de ação para manter sua base parlamentar, empurra com a barriga todas as decisões, mas se proclama corajoso, firme, realista e… cordial. Segundo a imagem que vê no espelho, é duro, mas sem perder a ternura jamais.

Finalmente, a pesquisa do PMDB o apresenta como o mais simpático e o mais corrupto, enquanto o PT aparece como o mais preocupado com os pobres e o país. Em relação a ambos, a esmagadora maioria do eleitorado gostaria de vê-los com posições mais decididas no combate ao governo e a sua política econômica. Ao mesmo tempo, a imprensa e certos políticos continuam batendo pé na tese de que o que falta à oposição não é combate ao governo e suas políticas, mas propostas viáveis.

Tempos estranhos estes em que o Brasil das elites e do poder, onde os presidentes do Senado e da Câmara podem chegar às raias da baixaria por cargos e sinecuras, fica cada vez mais longe do Brasil do povão que, em sua sábia experiência, só quer uma oposição mais firme, mesmo que seja através de um partido corrupto.

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