Tempos de Copa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tempos de Copa, n. 299, 08 jun. 2002.

 

 

Já foi incorporada ao calendário das eleições para os governos e legislativos federal e estaduais a sina do intervalo das Copas do Mundo de futebol. Havia um certo consenso de que, nesse intervalo, nada se criaria e nada se modificaria. No entanto, pelo menos neste ano de 2002, do mesmo modo que a antiga transportadora “A Lusitana” rodava enquanto o mundo girava, o governo FHC parece disposto a aproveitar-se, enquanto as atenções populares estão voltadas para a performance do time canarinho.

Parecendo convencidos de que a melhor forma de culpar Lula pela argentinização do Brasil é fazer com que essa tragédia ocorra mesmo antes das eleições, os ministros da área econômica fizeram declarações e adotaram medidas, entre as quais a intervenção na Previ, que levaram o chamado mercado à balbúrdia, com brusca elevação do câmbio, da taxa de risco Brasil e das dificuldades para a rolagem das dívidas. Nem a aprovação da continuidade imediata da cobrança da CPMF acalmou os investidores.

Esse plano de empurrar o país para a catástrofe pode estar associado à crescente dificuldade do candidato governista em consolidar sua aliança com o PMDB, apesar da escolha da deputada Rita Camata para vice. As disputas e desavenças entre esse partido e o PSDB agravaram-se em quase todos os estados. Não sendo desavenças menores o que está em jogo, mas a hegemonia das oligarquias regionais e o poder de apropriação de uma riqueza que não tem crescido, os acordos tornaram-se difíceis. Nessas condições, o PSDB corre o risco de não ter coligação formal com qualquer outro partido, apesar do empenho das alas governistas do PMDB e do PPB.

Como os fundamentos econômicos do Brasil apresentam-se cada vez mais frágeis, apesar da publicidade em contrário, não seria difícil ao governo acelerar a argentinização. O importante seria associá-la a Lula, fazendo com que o petista carregue o ônus de uma política pela qual não tem responsabilidade alguma. Conseguido o feito de impedir a vitória do candidato popular, certamente o FMI e o Banco Mundial correriam para retirar o governo do buraco, talvez com mais presteza do que fizeram ao oferecer ajuda ao golpista Carmona, na Venezuela.

Pode-se pensar que tal idéia ou plano seja tão absurdo quanto a hipótese de Filipão chamar Romário. Ou do presidente de um país chamar publicamente, ao vivo e a cores, o presidente, assim como todos os políticos e o povo de um país vizinho, de ladrões. É bem verdade que a primeira seria mais fácil de acontecer, por ser menos traumática, enquanto a segunda pareceria impensável. No entanto, como Filipão parece coerente em sua teimosia, ficou por conta do presidente Battle (é presidente mesmo?), do Uruguai, demonstrar que absurdos acontecem. Quanto mais em tempo de Copa.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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