Tempestade inócua

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tempestade inócua, n. 289, 30 mar. 2002.

 

 

Virou lugar comum, em certos setores, achar que a tempestade que agita a política não afetará a economia. Apesar do rompimento do PSDB e do PFL, apesar das pesadas acusações de Sarney a Serra e a FHC, apesar dos temores generalizados, não só na esquerda, de que os “tucanos farão de tudo, sem nenhuma escrúpulo”, como disse Maria Victória Benevides em entrevista ao Correio, para permanecer no poder, nada disso influenciaria o curso inevitável de revigoramento da economia brasileira.

O dólar e os juros estariam caindo, a produção industrial estaria se recuperando, o fluxo de capitais internacionais para o Brasil estaria aumentando, a balança comercial estaria superavitária, a economia norte-americana estaria voltando a crescer. Então, todos os indicadores seriam favoráveis e o “mercado” vislumbra que a economia seguirá sua marcha. A tempestade política, natural em períodos eleitorais, seria pois inócua sobre o curso de recuperação econômica.

Como análises idênticas foram feitas no início de 1999, 2000 e 2001, embora utilizando-se de outros fatores políticos que não as eleições e as tempestades políticas decorrentes delas, deixemos que o futuro da economia seja entregue a ela própria. Do ponto de vista político, é mais interessante saber se as tempestades atuais terão alguma influência sobre a sociedade brasileira como um todo, ou serão apenas mais um episódio “democrático”.

Lula previu que as próximas eleições serão as “mais sujas” da nossa história recente e o discurso do ex-presidente Sarney parece corroborar tal previsão. Entretanto, há gente que jura de pés juntos que a democracia brasileira não está ameaçada. Afinal, dizem, o Brasil de hoje não pode ser comparado ao Zimbabwe, à Colômbia, ao México, ao Peru e nem mesmo ao próprio Brasil da era ditatorial. E, como afirmou o líder do PSDB, Sarney apoiou a ditadura e não teria moral para criticar os que, no passado, “viveram o exílio, a prisão, o opróbrio, a tortura”, os únicos que “podem falar de democracia”.

Mas este é justamente o tipo de armadilha em que a esquerda não pode cair ao analisar a atual tempestade política. Como a história mostrou, a “democracia” de que falavam muitos dos que viveram o exílio e a tortura, na época da ditadura militar, era a mesma “democracia” de muitos que serviram à própria ditadura. Tanto era, que depois se uniram para levar avante as reformas exigidas pelas corporações multinacionais, cujas conseqüências foram tão bem sintetizadas pelo professor Jean Ziegler.

Há muito essa “democracia” vem reduzindo o espaço democrático do povo. Eles brigam não por causa disso. Mas porque o tucanato está rompendo com a “democracia acertada entre eles”. É disputa de bandos mafiosos, não de democratas contra anti-democratas. Então, os setores populares precisam não só fazer essa distinção, como atiçar esses bandos a mostrar-se com sua verdadeira face. Afinal, nada como uma tempestade desse tipo para mostrar ao povo quem realmente são.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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