Tão distante, tão parecido

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tão distante, tão parecido, n. 173, 18 dez. 1999.

 

 

Dois acontecimentos, tão distantes e tão distintos por suas bandeiras e reivindicações, mas tão parecidos em sua natureza, como as manifestações de Seattle, contra a rodada do Milênio, e as da Novacap, em Brasília, por aumento salarial e emprego, ainda repercutem.

Em Seattle, os manifestantes queriam impedir que a Organização Mundial do Comércio – OMC – tomasse novas medidas para a derrubada das barreiras alfandegárias e a liberação do comércio mundial, com o fim de garantir seus empregos nacionais e evitar o rebaixamento salarial e o prolongamento das jornadas de trabalho impostas pelas desregulamentações neoliberais.

Em Brasília, os funcionários da Novacap pretendiam o reajuste de seus salários, corroídos pela inflação real dos anos recentes e pelas dívidas e juros escorchantes, contraídos no embalo do sonho estimulado do consumo a crédito fácil do Plano Real.

Em ambos os casos, as reivindicações econômicas sustentavam as bandeiras e os discursos, embora a desproporção numérica fosse imensa. Lá, cerca de 100 mil militantes, de diferentes regiões dos Estados Unidos e de todo mundo, deram uma demonstração de força, que obrigou as forças policiais a conter seus excessos. Aqui, um reduzido número de funcionários não teve medo do arreganho da tropa de choque da Polícia Militar de Brasília e, por sua ousadia, foi trucidada pela tolerância zero do truculento governador Roriz.

Embora o Planalto tenha externado desaprovação pelo assassinato de um manifestante brasiliense e pelo espancamento generalizado dos demais, há muito ele vem incentivando a repressão a manifestações populares, pela omissão e leniência com a impunidade. Policiais e milicianos ilegais vêm matando trabalhadores e populares nas zonas rurais e nas periferias urbanas, sem qualquer medida oficial para modificar tal quadro. E Brasília foi apenas um ensaio da elevação da intolerância policial diante da política oficial de repressões a manifestações populares. Nesse contexto, embora não tenha sido o primeiro massacre sob a égide do governo FHC, certamente não será o último. A não ser que, como em Seattle, a massa de manifestantes iniba a truculência selvagem da polícia.

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