Tanto barulho, por quê?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Tanto barulho, por quê?; 29 abr. 1998.

 

 

Há pouco, o cenário político parecia um marasmo. Mas não há o que sempre dure. As mortes do Serjão e de Luís Eduardo Magalhães e a escolha de Vladimir Palmeira candidato a governador pelo PT do Rio sublevaram a calmaria e aparentam haver jogado os campos políticos no caos.

FHC encontraria dificuldades intransponíveis para articular suas forças na batalha pela reeleição. Mas, agora, teria sido salvo pela renúncia iminente de Lula, a desunião das esquerdas, a intervenção do Diretório Nacional do PT no Rio, o racha do PT etc etc. As notícias são estas.

Porém, como nossa tarefa é garimpar as tendências reais, deixando de lado as aparências, propomos outro raciocínio. Suponhamos que FHC não encontre mesmo alguém à altura dos colaboradores íntimos que perdeu. Isto significa que o vácuo não será ocupado? Se isto acontecer, será a primeira vez na história. Esta cria sempre os personagens para atender às necessidades criadas pela ação dos próprios homens. Como FHC e as forças que o apoiam continuam empenhados em levar avante seus planos, é então quase certo que o vazio será preenchido, e rapidamente.

Assim, se FHC vier a perder a reeleição, terá sido pelos motivos que ele próprio engendra com suas políticas. Se ganhar, só os resultados práticos poderão medir a responsabilidade do PT do Rio.

Mesmo porque, a rigor, este não fez nada que o PSB e o PDT não estejam praticando. Se a escolha separada de um diretório estadual significar o rompimento da união nacional da esquerda, isto seria mais do que um indício de que  tal união não tinha bases sólidas e acabaria encontrando outros motivos para dissolver-se.

Podemos, então, supor algumas hipóteses para o alarido que agita a esquerda. A primeira está relacionada com aqueles grupos, dentro e fora do PT, para os quais a candidatura Lula é estreita e impede a desejada frente de centro-esquerda. Paradoxalmente, estes grupos são, agora, os que fazem o maior barulho… em defesa de Lula candidato. Na verdade, Arraes, Erundina e outros alimentam indignação contra o sectarismo do PT do Rio para levar Lula a desistir e, de quebra, rachar o PT. O resto é pretexto.

Outra hipótese pode ser a esperança de Lula em transformar-se candidato de uma frente de centro-esquerda, embora os participantes dessa hipotética frente rejeitem seu perfil, e também o de Brizola. Envolto nesta ilusão, Lula pode achar que o PT do Rio o livrou do velho caudilho e está lhe dando um bom motivo para expulsar a esquerda do partido. É uma hipótese esdrúxula, mas não pode ser descartada.

Há ainda uma terceira. A de que Brizola também desejasse um pretexto para livrar-se dos compromissos que vinha assumindo, em virtude da impossibilidade de mantê-los. Não são poucos os estados em que o PDT está mais para PPB e PFL do que para qualquer frente à esquerda. Se o PT fluminense não houvesse lhe dado o atual pretexto, ele teria que procurar outro.

Assim, contando com a decisão do diretório do PT-Rio, essas são as tendências principais na esquerda, que podem delinear seus cenários futuros. Três dias para resolvê-las não as modificarão. Por isso, voltaremos a elas na próxima semana.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *