Taça em disputa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Taça em disputa, n. 486, 11 fev. 2006.

 

 

A perplexidade, que abala a direita ante os ventos de esquerda que sopram na América do Sul, agora parece espraiar-se pelo conservadorismo tupiniquim. Afinal, os arraiais tucanos e pefelistas, para ficar apenas nos mais notórios, já alardeavam como favas contadas a derrota de Lula e do PT. Na verdade, já discutiam e se dilaceravam para decidir quem iria pegar a taça e ser o novo presidente.

Não haviam dado qualquer importância ao fato de a militância marcar presença massiva no processo de eleição da nova direção petista. Sequer notaram que tal presença representava uma demonstração de que, apesar dos desvios e delinqüências de alguns dirigentes, dos ataques destruidores da direita, das deserções de companheiros desencantados e das dificuldades do ex-campo majoritário para fazer autocrítica, a militância petista estava disposta a carregar com firmeza suas bandeiras e estrelas vermelhas, e continuar a luta que recomeçara com a fundação do PT.

Também não prestaram atenção ao fato de que, apesar da defensiva política do PT e do governo, e dos ataques cerrados da direita e da ultra-esquerda, em nenhum momento a preferência eleitoral de Lula foi inferior a 35%, tendo por base as camadas populares e trabalhadoras de baixa renda. Os mais pobres, embora sofrendo pressão constante para desacreditar da eficácia das políticas sociais do governo, certamente ainda se lembravam de suas agruras sob FHC e preferiam acreditar na esperança.

Direitistas e afins desdenharam a possibilidade de o governo rearrumar-se e passar a reduzir tributos, executar projetos de infra-estrutura paralisados, elevar os investimentos, abrir a perspectiva de um crescimento maior do PIB e do emprego, ampliar os mecanismos de redistribuição de renda e reverter em parte a marcha para um cenário trágico. Firmaram-se, pois, apenas num dos cenários de 2006.

Porém, para seu desespero, o PT e o governo começaram a dar mostras de um novo ativismo, preocupando-se com o aumento da oferta e a execução de políticas produtivas e sociais voltadas para os setores populares e médios. Além disso, o saco de maldades contra Lula e o PT, que a direita considerava inesgotável e capaz de alimentar as CPIs pela eternidade, parece estar se esvaziando. Assim, pelo destempero verbal do ex-presidente FHC, pode-se deduzir que o tucanato-pefelista está com dificuldades para pôr a mão na taça, embora prometa uma disputa renhida e pesada entre a tragédia e a esperança.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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