Socialismo e capitalismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Socialismo e capitalismo, n. 525, 11 nov. 2006.

 

 

É positivo que setores da esquerda anti-Lula reconheçam que a maior parte das camadas e movimentos populares enxergou diferenças profundas entre Alckmin e Lula, e deu a vitória a este. Infelizmente, ao invés de entenderem as razões dessa atitude do povão, tais setores continuam procurando justificar-se. Argumentam que caberia aos partidos da esquerda (entre os quais não incluem o PT), como setor consciente, pensar estrategicamente, enquanto a maior parte do povo, não tendo ainda consciência de classe, estreitaria seu horizonte a questões cotidianas, e se enganaria (ou se deixaria enganar) mais facilmente.

Desdenham, assim, o fato de que a tática política de esquerda existe justamente para aproximar da estratégia as questões cotidianas, a partir da própria experiência de luta das camadas populares. As grandes massas da população só acordam para o socialismo se, ao lado da propaganda sobre suas vantagens, suas necessidades e suas experiências de luta as colocam em antagonismo total com o sistema capitalista.

Por outro lado, têm uma visão estratégica que não se coaduna com a realidade econômica e social do Brasil, nem com as condições em que Lula foi eleito, seja em 2002, seja agora. No caso das privatizações, por exemplo, não podem negar que Lula colocou um freio às privatizações, iniciadas com Collor, e levadas quase ao limite por FHC, mas continuam afirmando que o PT sucumbiu ao privatismo “neoliberal”.

Ou seja, consideram que um governo popular deve se colocar contra a propriedade privada e contra qualquer concessão ao capitalismo. Ignoram que, mesmo que no Brasil tivesse ocorrido uma revolução socialista, o nível de desenvolvimento de suas forças produtivas exigiria a convivência, por um tempo razoável, de diferentes tipos de propriedade, inclusive privadas capitalistas. Para início de conversa, ao se realizar a reforma agrária, ou democratizar a propriedade territorial, teria que se aceitar e proteger a propriedade dos pequenos camponeses sobre a terra e sobre seus meios de produção.

Como no Brasil não ocorreu qualquer revolução social, e a esquerda somente acessou uma parte do Estado, a idéia de socializar a propriedade torna-se ainda mais problemática. Nas condições atuais do Brasil, na questão da propriedade, a um governo de esquerda cabe reforçar as empresas estatais como instrumentos de política econômica e social, e incentivar as empresas capitalistas a desenvolverem as forças produtivas do país.

Em relação às propriedades capitalistas, o governo popular também deve diferenciar as grandes e médias das micros e pequenas. Deve atuar no sentido de quebrar os monopólios e reforçar e expandir as micros e pequenas empresas capitalistas, tanto urbanas quanto rurais, as únicas que hoje podem realmente criar milhões de novos postos de trabalho. À medida que essa democratização capitalista recriar uma massa considerável de trabalhadores assalariados, resgatando sua força social ou de classe, as condições para a luta pelo socialismo deixam de ser luta literária e passam a ser luta real de classe.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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