Só para confundir

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Só para confundir, n. 208, s/d.

 

 

De uma hora para outra, o governo FHC parece haver se tornado adepto do controle dos preços. Não mais do que de repente, decidiu estabelecer um código de ética dos altos funcionários governamentais. Na mesma batida, abandonou a retranca e a cautela quanto às taxas de juros de referência do Banco Central e está se esforçando para baixá-las. E, reiteradamente, tem prometido planos e verbas para que os estados ataquem os problemas sociais críticos e debelem a pobreza.

Mas, na prática, os preços continuam sob o comando do mercado. As tarifas, em especial, fazem parte dos contratos de privatização e do acordo com o FMI, e vão continuar pesando mais do que a inflação. Na prática, também, o tráfico de influência e o enriquecimento ilícito de ex-altos funcionários governamentais continua impune, apesar dos indícios crescentes do envolvimento deles em irregularidades de todo tipo. As taxas cobradas pelos bancos aos tomadores, por seu turno, ignoram olimpicamente as taxas do BC e permanecem as mais estratosféricas do mundo.

É bem verdade que o governo tem liberado verbas para os aliados apresentarem serviço antes das eleições. Porém, bastou falar em atacar os problemas sociais para que o Ministro do Planejamento declarasse que vai realizar novos cortes orçamentários e o Ministro Malan reiterasse que o compromisso dele é prioritariamente com a manutenção do equilíbrio fiscal e com a contenção da inflação. Em outras palavras, para os xerifes do orçamento e do dinheiro público, pagar 20 a 30 bilhões de dólares ou mais para os credores internacionais não tem problema, mas gastar uns 3 ou 4 bilhões no combate à pobreza, desequilibra o orçamento e atrai inflação.

Não por acaso, FHC, Malan e certa mídia comprometida com o grande capital estão alvoroçados contra o plebiscito da dívida externa, a ser realizado no início de setembro. Eles não estão tão preocupados se o plebiscito terá amplitude ou não. O que os preocupa realmente é o simples fato de que o problema da dívida será recolocado em discussão num momento sensível para o governo. Em pesquisa de O Globo na Internet, mais de 46% dos contatados não acredita que o governo vá controlar os preços e mais de 36% acredita que ele está apenas procurando confundir a população.

Pesquisas eleitorais também apontam que 50% ou mais dos eleitores não votarão em quem seja apoiado por FHC. Temos, então, uma situação em que grandes contingentes da população já não acreditam em qualquer medida positiva do chefe do governo. Nessas condições, discutir dívida externa e colocar o governo federal no centro das discussões em pleno período eleitoral será, para ele o pior dos mundos. Pela primeira vez em muito tempo, a oposição parece assumir a iniciativa, justo no momento em que FHC pensa estar gerando boas notícias, só para confundir.

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