Situação inusitada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Situação inusitada, n. 312, 07 set. 2002.

 

 

A rigor, os candidatos em posição inferior nas pesquisas eleitorais deveriam voltar suas baterias totalmente contra o candidato preferencial. No entanto, Serra e Ciro engalfinham-se cada vez mais numa guerra sem quartel, enquanto Garotinho se vê obrigado a atacar o governo FHC e, de tabela, Serra. E Lula corre por fora, como se fosse o último colocado.

Com Serra colado ao governo FHC, ficou impossibilitado de convencer quem quer que seja de sua pretensão mudancista. Transformou-se, desse modo, no alvo dos demais. Isso, pela simples razão de que a maioria do eleitorado quer votar na oposição e na mudança. Sem parecer oposicionistas e mudancistas, tanto Ciro quanto Garotinho favoreceriam Lula sozinho na colheita. E sem atacar o candidato oficial ou do governo, seus discursos soariam falsos.

O problema é que Serra não os deixou sem resposta e apelou para o jogo baixo. No caso de Ciro, o cenário de guerra ganhou um coloração especial. A batalha ocorre entre membros da antiga aliança que levou o país ao desastre e teria que descambar, então, numa briga de foice de comparsas em quarto escuro. Aí, vêm à tona os podres verdadeiros e/ou fictícios de ambos os lados e cria-se um antagonismo difícil de superar.

No caso de Garotinho, o problema é outro. Para cumprir seu papel divisionista, tirando eleitores de Lula, precisa mostrar-se cada vez mais “radical”. E tornar-se “radical”, no presente, significa até mesmo ultrapassar os limites nos ataques ao governo. Assim, embora Garotinho e Ciro se esforcem em atingir Lula e o PT, não podem deixar de concentrar-se em Serra e no governo FHC. O que obriga estes a também voltar-se contra eles, principalmente contra Ciro. Em todos os casos, Lula fica em segundo plano.

Esse quadro transformou as coordenações das campanhas de Serra, Ciro e Garotinho em birutas de aeroporto em dias de ventos cruzados. Enquanto uns defendem prioridade nos ataques a Lula, outros aconselham recrudescer as críticas a Serra. No final de contas, mantendo-se as tendências oposicionistas e mudancistas do eleitorado, todos terão poucas chances de voltar-se totalmente contra Lula a curto prazo.

Dificuldade que pode ser reforçada se Lula acentuar sua postura de oposição e mudança, como fez no debate da Record, e ampliar seu programa de grandes comícios e caminhadas. Por um lado, obrigará Ciro e Garotinho a atacar Serra com mais ferocidade para parecerem oposicionistas e mudancistas. Por outro, poderá transformar sua campanha numa grande mobilização popular pelas mudanças e criar uma forte armadura contra os ataques a seu programa de governo. Se isso ocorrer, talvez continue correndo por fora até o último minuto. Sem dúvida, uma situação inusitada na história eleitoral brasileira.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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