Sinais de alerta

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Sinais de alerta, n. 335, 01 mar. 2003.

 

 

Não deixa de ser interessante assistir aos antigos apoiadores do governo FHC, que foram incapazes de realizar as reformas da previdência e tributária, exigindo pressa e rapidez no envio das propostas do governo Lula a respeito, ao mesmo tempo que levantam a voz para dizer que Lula está fazendo tudo igualzinho a FHC.

Essas atitudes deveriam alertar o governo petista para os perigos que encerram. Por um lado, os tucanos desarvorados e os conservadores desvalidos pretendem evitar, a todo custo, que as reformas sejam discutidas com o conjunto da população, conforme foi a promessa e é a prática petista. Se o povão entrar no circuito da discussão, certamente o conteúdo das reformas será diferente. As reformas que o país precisa têm o mesmo nome, mas não podem ter o mesmo conteúdo pretendido pelas viúvas do neoliberalismo

Por outro lado, o bordão “Lula igualzinho a FHC”, repetido à exaustão por representantes do tucanato e do pefelismo, e por vários colunistas, tem o objetivo de desgastar o governo diante da opinião pública e retirar-lhe a base social que necessita para fazer as mudanças democráticas e populares assumidas em campanha. Aproveitam a difícil transição do governo petista, acossado pelo perigo da guerra no Oriente Médio, pelo surto inflacionário e por outras bombas de tempo deixadas pelo governo FHC, para tentar cravar a imagem da transição como continuidade pura e simples do neoliberalismo.

Diante desses sinais de alerta, o PT e o governo Lula talvez não tenham muita escolha. Ou batem firme no espólio perverso deixado por FHC, ou perdem a batalha da comunicação. Ou discutem amplamente as reformas com o povão e garantem que elas trarão benefícios reais para a maioria, ou perdem sua base social. Ou tomam medidas que dêem massividade à produção dos micros e pequenos produtores rurais e urbanos, ou perdem a batalha da inflação atual, cuja natureza está principalmente na escassez de oferta de bens de consumo cotidiano e na brutal contração do poder aquisitivo do povão.

Ou o governo enquadra com firmeza as agências reguladoras, revê os indicadores de reajustes de tarifas e toma medidas contra as empresas privatizadas que não cumprem os contratos e não pagam suas dívidas, ou vai realmente parecer igualzinho a FHC, que terceirizou o governo para aquelas empresas fazerem o que bem quisessem. Em outras palavras, ou o PT e o governo, a cada medida de transição que pareça continuidade, adotam medidas claras que apontam para as mudanças, ou terão cada vez mais dificuldades para mostrar suas diferenças. Mesmo porque, a lua de mel da imprensa não passa de engodo. Basta ler nas entrelinhas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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