Sem retorno

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Sem retorno, n. 235, s/d.

 

 

Os que pensaram que a aliança de sustentação de FHC seria refeita logo após a eleição das mesas da Câmara e do Senado, tendo por base a natureza fisiológica do PFL, enganaram-se redondamente. Independentemente dos resultados da reunião da executiva do PFL, marcada para o dia 8, não haverá retorno, mesmo que uma parte desse partido continue apoiando o governo. O rompimento de ACM indica a eclosão de um processo muito mais profundo de desagregação da aliança governista, cujos desdobramentos empolgarão o governo no resto de seu mandato, paralisando-o e tornando-o refém de suas próprias contradições internas.

Na verdade, como um dos mais sagazes políticos da direita brasileira, ACM pulou do barco antes que afundasse de vez. E saltou atirando, para distanciar-se o mais possível do fracasso redundante de FHC em manter nosso povo na ilusão de que as políticas neoliberais lhe trariam felicidade. Como Bornhausen é useiro e vezeiro em entrar em canoas furadas, é possível que ele convença uma parte do PFL a permanecer ainda algum tempo embarcada. Porém, os ratos têm um incrível instinto de sobrevivência e tenderão a abandonar a viagem na primeira oportunidade.

O mesmo é verdade para o PMDB. Ele conseguiu o que pretendia – ocupar um dos mais importantes postos da República – e vai tentar arrancar de FHC sua carne e seu tutano, em troca de apoio, ao tempo que volta a agasalhar Itamar como pré-candidato do partido às eleições presidenciais. Nessas condições, só há dois caminhos: ou o PMDB em bloco abandona o governo numa das futuras e previsíveis crises em que continuará se debatendo, ou também racha em dois quando os articuladores de Itamar considerarem que a vinculação do partido a FHC é prejudicial à candidatura do governador de Minas.

Restará o PSDB na sustentação do governo, já que o PTB conta pouco. Sem aliados confiáveis e seguros, o partido de FHC virará a Arena em final da ditadura militar, em que cada um procurará desfazer-se de seu passado neoliberal e tornar-se campeão da luta contra a corrupção e pelo social. Aliás, nesse sentido, ACM inovou pouco. Ele repete o que fez quando se deu conta que o regime militar findava, sendo acompanhado depois por Sarney, Marco Maciel e outros condestáveis civis da ditadura. Dificilmente o PSDB ficará imune à síndrome do salve-se quem puder, já que seu chefe maior perde cada vez a capacidade efetiva de governar.

Temos, então, um cenário político que não esperou sequer o carnaval passar para apresentar-se com toda sua força devastadora. Para salvar-se, FHC precisaria muito mais do que seu plano requentado de final de mandato. Precisaria tornar-se oposição a Malan, Fraga e companhia limitada, arrancar de ACM as bandeiras que este tenta tirar do PT e da oposição de esquerda e tomar medidas fortes para mudar em cento e oitenta graus o rumo de seu governo. Só milagre!

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