Sem decisão e sem franqueza

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Sem decisão e sem franqueza, n. 461, 13 ago. 2005.

 

 

Segundo o ex-presidente FHC, “a hora é já: oposição tem de cobrar dos governantes os erros cometidos”. Segundo esse personagem, que quebrou o país e liquidou o parque produtivo brasileiro com suas privatizações, “nunca houve na História do Brasil uma seqüência de desvios de conduta tão deprimente como a que foi montada … sob os auspícios de um partido, o PT”.

Ainda segundo ele, “ruma-se contra o tempo”, se as pessoas não forem acusadas, se deixarmos que “a democracia se afirme com o prosseguimento das investigações”, se as responsabilidades de cada indivíduo decorrerem das apurações, e se as punições, resultantes das investigações, forem feitas “de acordo com as leis”. O “país perderá se deixarmos passar a hora” de afirmar “que o Brasil vem sendo governado por um bando de gente irresponsável”, da qual se deve cobrar “os erros que vêm cometendo”.

Em outras palavras, o ex-presidente apela, descaradamente, para o golpe. Quer que o presidente se responsabilize por atos de outros, de modo a ser apeado do governo “legalmente”. Como Lula se nega a colocar a corda no próprio pescoço, FHC apela para que se rompa a legalidade, sob o argumento de que já está passando da hora.

Na verdade, o que o ex-presidente teme é que as investigações e apurações entrem pela História adentro. Se isso ocorrer, elas atingirão esquemas antigos, envolvendo figuras de proa do tucanato e do pefelismo. E, portanto, seu ex-governo. Afinal, mesmo superficiais, as investigações já bateram num ex-ministro do PFL e no atual presidente do PSDB, ambos envolvidos com o esquema do “empresário” Marcos Valério. Indo mais além, elas certamente descobrirão que os “desvios de conduta” auspiciados por esses partidos foram numa escala muito superior aos praticados por alguns dirigentes petistas.

Isso, porém, não exime o governo e o PT. Estes, os maiores interessados na verdade, tanto para evitar injustiças, quanto para evitar “acordões”, devem expulsar de seus quadros os casos já comprovados de “desvio de conduta”. E afastar dos cargos e órgãos do governo e do partido todos os envolvidos, sem exceção, até que tudo seja investigado e apurado. Os resultados é que devem mostrar quem é inocente e quem é culpado.

A direção petista, porém, ainda vacila em seus procedimentos. Demora em colocar fora de ação a camarilha que se instalou em seu seio e praticou atos abomináveis contra o partido e a sociedade. Isso a torna incapaz de enfrentar a ofensiva política da direita e derrotá-la, seja agora, seja em 2006. Assim, do jeito que as coisas vão, fica a pergunta: se era para continuar sem decisão e sem franqueza, para quê a troca de uma parte da direção do PT?

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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