Se há polarização, não há neutralidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Se há polarização, não há neutralidade, n. 520, 07 out. 2006.

 

 

É admissível que setores da esquerda sejam críticos em relação aos resultados do governo Lula. Uma parte deles pretendia medidas revolucionárias, e as medidas do governo estão a léguas disso. Outra parte desejava reformas radicais, e não tivemos nada disso. Outros não se conformam que tenha surgido no seio do PT e no governo um grupo delinqüente, e culpam o presidente por não haver denunciado de forma clara e contundente seus antigos auxiliares. Ainda outros acham que o governo Lula está a serviço dos grandes grupos financeiros, embora estes tenham escolhido Alckmin como seu candidato.

Tais setores sequer reconhecem que, em quatro anos, o governo Lula criou 6 milhões de empregos, contra 700 mil do governo FHC, em oito anos. Ou que o valor do salário mínimo alcançou 152 dólares no governo Lula, com um poder de compra de 2,2 cestas básicas, contra 55 dólares e um poder de compra de 1,3 cesta básica no governo FHC. Talvez achem que isso é fruto de assistencialismo puro ou, como diz a direita, populismo da pior espécie.

Também não parecem achar grande coisa comparar as 20 operações e as 54 prisões efetuadas pela polícia federal, durante os oito anos do governo FHC, com as 183 operações e 2.971 prisões efetuadas durante o governo Lula, no combate à corrupção, ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. Ou que haver paralisado as privatizações, evitado criminalizar os movimentos sociais, superado a discriminação contra socialistas e comunistas e desenvolvido uma política externa independente não merece sequer ser tomado em consideração.

Embora seja estranho um negativismo desses, que conduziu a uma forte tentativa de igualar a candidatura de Lula com a de Alckmin, hoje não deveria mais haver dúvidas que uma vitória tucano-pefelista vai significar o retorno das privatizações selvagens e escusas, das reformas contra os pobres, da criminalização dos movimentos sociais, da discriminação contra socialistas e comunistas e da política externa caudatária do império norte-americano. Mesmo prometendo desenvolvimento, a campanha do ex-governador paulista não deixou dúvidas de que seu programa é o oposto do que Lula fez e se comprometeu a continuar.

Frente a uma polarização desse tipo não pode haver neutralidade, mesmo que não se concorde com toda ou com grande parte das políticas implementadas pelo governo Lula. Voltar à era FHC não vai representar apenas uma derrota para o PT e seus atuais aliados. Vai representar um retrocesso e uma direitização da sociedade e da política brasileiras, e vai atingir a todos. A não ser que se tenha voltado à política do quanto pior melhor, a hora é de dizer não à direita personificada por Alckmin.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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