Se eu fosse…

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Se eu fosse…, n. 459, 30 jul. 2005.

 

 

Se eu fosse Delúbio, Sílvio ou etc, eu diria o seguinte na CPI dos Correios:

“Senhores: eu confesso que, contra as regras e normas do partido ao qual pertencia, pratiquei as mesmas falcatruas e crimes que muitos dos senhores há muito praticam. Cai na vala comum daqueles deputados, senadores, juízes, funcionários e empresários que corrompem e são corrompidos, achacam e são achacados, extorquem e são extorquidos”.

“Ao fazer isso, traí as esperanças do povo brasileiro, a confiança de militantes e dirigentes honrados, e coloquei em perigo a própria existência do PT. Ao imitar, desgraçadamente, os atos e a moral próprios de muitos dos senhores, permiti que os atuais ataques ao PT igualem a mim e a meus comparsas todos os filiados desse partido”.

“A completa responsabilidade pelos atos de corrupção que pratiquei, em conluio com um grupo infiltrado no PT, cabe exclusivamente a mim e aos membros desse grupo. Formamos uma verdadeira quadrilha, que se aproveitou da boa-fé da maioria dos petistas. Por isso, estou disposto a dar os nomes dos membros dessa quadrilha, assim como daqueles que participaram dos esquemas corruptos montados por nós. Responderei a todas as inquirições dos parlamentares que sei serem honrados e dignos, porque me arrependo do que fiz”.

“Porém, também por isso, não responderei a qualquer questionamento daqueles parlamentares que serviram como exemplos e paradigmas para mim, no terreno pantanoso em que ingressei. Não aceito sua hipocrisia, do mesmo modo que agora abomino a que estava utilizando até há pouco. E não peço perdão ao povo brasileiro e aos militantes e dirigentes dignos do PT, porque não o mereço. O que mereço é a expulsão, com desonra”.

Isso se eu fosse, ou me chamasse, qualquer daqueles nomes. Ou se qualquer deles tivesse um forte senso de autocrítica, visão política da crise que criaram e coragem para imolar-se, pelo menos politicamente, na descoberta do crime cometido. Mas não parece ser o caso. Ao invés disso, eles procuram resgatar um duvidoso histórico de lutas, na esperança de que o passado funcione como passaporte para sua impunidade.

Nessas condições, só resta ao PT, à sua militância e aos dirigentes que não partilham dessa visão canhestra, cortarem a própria carne e não terem medo de dizer que estão expurgando de seu seio gente que traiu suas mais profundas e arraigadas esperanças.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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