Se era pra isso

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Se era pra isso, n. 511, 05 ago. 2006.

 

 

Respeito a decisão daqueles que consideram que a presente disputa eleitoral deve centrar-se na denúncia da hierarquia da ordem econômica global, e de que as exigências das potências centrais dessa ordem mundial precisam ser rompidas, como condição para que os problemas que afligem a maioria da população sejam solucionados.

Acho que estão errados porque confundem objetivos estratégicos (romper com as exigências das potências dominantes dessa ordem global) com objetivos táticos (formas intermediárias que buscam acumular forças para realizar aquele rompimento). Mas, considero que isso faz parte do aprendizado geral da luta popular, e que só a própria luta poderá mostrar quem está com a razão.

Porém, me espanta que alguns desses militantes, que romperam com o PT justamente por considerarem que este não realiza aquela denúncia, nem luta contra a ordem econômica global, tendo rebaixado seu programa, estejam fazendo malabarismos táticos na presente campanha eleitoral, moldando-se ao nível de consciência da população, e rebaixando suas propostas e seu discurso.

Por exemplo, pode-se acreditar, como declarou o candidato a vice-presidente do PSOL em entrevista ao O Globo, que nomeando apenas 250 pessoas de fora da máquina do Estado para os cargos de confiança do governo, os problemas de corrupção serão resolvidos? Será que ele crê, realmente, que a máquina estatal só é corrompida porque, como dizem o PFL e o PSDB, ela foi “partidarizada” pelo PT?

A máquina estatal brasileira, assim como a máquina estatal de qualquer outro país capitalista, é corruptível pela simples predominância, na sociedade, do sistema de busca exclusiva do lucro. No caso do Estado brasileiro, há um histórico sistemático de sua utilização para fins privados, tanto por formas legais, quanto ilegais. Como acreditar que a utilização de funcionários de carreira nas funções de confiança desse Estado será a garantia de sua utilização “limpa”? Bastaria um breve exame dos casos de corrupção descobertos na máquina pública, ao longo da história brasileira, para comprovar que seu lado “político” é apenas um aspecto do problema.

Assim, para ser coerente com a estratégia de rompimento com a ordem global, será indispensável incluir, como um de seus aspectos fundamentais, a destruição (ou, utilizando um eufemismo, a reforma radical ou revolucionária) desse Estado, e a criação de outro, de novo tipo. Achar que o Estado será transformado em servidor do povo se forem nomeados apenas 250 pessoas ilibadas de fora da máquina, deixando os demais cargos ocupados por funcionários de carreira, é enganação pura. Aliás, a que está sendo proposta por Alckmin.

Se era para isso, por que romper com o PT? Só para substituir a reforma parcial subordinada à correlação de forças, pela reforma da “despartidarização” do Estado?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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