Santa aliança

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Santa aliança, n. 516, 09 set. 2006.

 

 

Parece definitiva a inflexão na estratégia eleitoral oposicionista. Até o final de agosto, ela estava focada na crítica às políticas econômica e social do governo Lula. Não deu certo. Ao invés de minguar, o bolo cresceu. Só resta agora, às oposições, bater forte na conduta moral do governo, associando-a às denúncias de corrupção, e à suposta traição do PT e de Lula aos ideais que pregavam antes de 2002.

Um dos problemas dessa inflexão consiste em explicar por que, apesar da suposta traição de Lula a seus ideais, toda a direita, o grande capital e os grandes meios de comunicação estão hoje, esmagadoramente, contra a reeleição. Ou alguém acredita que Globo, Folha, Estadão, Veja e outros representantes midiáticos do capital estão trabalhando pela vitória de Lula?

Esse é o dilema da fração esquerdista da santa aliança contra o PT e Lula. Ela não quer entender que, mesmo que tenham ocorrido mudanças nas posições do PT e de Lula, tais mudanças não modificaram a essência das posições de classe, políticas e ideológicas que os dois representam na sociedade brasileira. Não fosse isso, as tentativas de aliar o PT aos partidos da direita, como o PSDB e o PFL, já teriam ocorrido.

Esse dilema vai aumentar à medida que a direita ingressar, como quer FHC, em articulações golpistas. Ou alguém pode supor que FHC fez apenas arroubo literário ao lamentar que, no Brasil de hoje, não exista alguém como Carlos Lacerda, para “dramatizar e cobrar”, dar “nome aos bois”, arriscar e botar fogo no palheiro? Ou, que tucanos e pefelistas, ao questionarem a legitimidade da vitória de Lula, utilizando-se de qualquer tipo de argumento, estão apenas fazendo terrorismo psicológico, como em 2002?

As classes dominantes não engoliram a derrota de 2002. Não se conformam que a esquerda governe, por mais concessões que ela lhe tenha feito. E não querem correr o risco, com a vitória de Lula, de que o PT se recomponha da crise de 2005, e tenha a chance de colocar em prática, e consolidar, uma “hegemonia de longa duração”. Para elas, não está em jogo apenas a reeleição de Lula, mas a possibilidade de serem construídas, num segundo mandato, as bases institucionais e sociais de uma hegemonia popular.

Não querem correr o risco de perder, além dos setores pobres, que sempre constituíam seus currais eleitorais, também os setores médios da população. Se isto ocorrer, permitirá a construção de uma aliança social de esquerda no Brasil, sem paralelo em sua história. É risco em demasia. Por isso, uma parte da direita está consciente de que uma derrota em 2006, principalmente no primeiro turno, pode ser um golpe em suas pretensões de retomar o domínio do Estado, tanto agora como em 2010.

As tentações golpistas têm origem nesse cenário de probabilidades. Seria conveniente que a esquerda oposicionista não pensasse nisso como um simples delírio.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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