Risco de quem?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Risco de quem?, n. 298, 01 jun. 2002.

 

 

O governo e a candidatura oficialista ingressam, cada vez, numa jogada perigosa. Por um lado, repetem à exaustão, com uma insistência digna de nota, que os fundamentos econômicos estão sólidos. Por outro, alguns ministros e o candidato governamental têm reiterado que o Brasil pode transformar-se na Argentina “se a casa não estiver arrumada”, explicitando que isto pode ocorrer se a oposição vencer. Desmentem, desse modo, o próprio FHC, que tem dito alto e bom som que a casa está arrumada.

Uma das duas. Ou a casa está arrumada com sólidos fundamentos econômicos, ou a casa não está arrumada e já trilha o caminho, como temos afirmado aqui, de tornar-se uma “grande Argentina”. Se a primeira hipótese for verdadeira (casa arrumada), a campanha do candidato oficialista faz terrorismo porque usa um falso argumento para disseminar o medo entre o eleitorado brasileiro. No entanto, se a segunda hipótese for verdadeira, como parece (casa desarrumada e risco Argentina), a campanha do candidato oficialista também faz terrorismo porque imputa ao candidato popular, de antemão, um desastre cuja responsabilidade é única e exclusivamente do governo FHC e dos que o apoiam.

Então, não basta denunciar os que fazem terrorismo ao falar em “Risco Lula” e ao afirmar que a vitória oposicionista pode conduzir o Brasil a viver a mesma tragédia da Argentina. É preciso dizer e repetir, exaustivamente, que esse perigo já existe justamente como resultado das políticas econômicas praticadas por FHC e sua equipe. Quem deu apoio explícito e escrachado a Cavalo nas vezes em que ele foi o homem todo poderoso do FMI na Argentina? Quantas vezes Malan apareceu na televisão para dizer que a Argentina (leia-se Menem-Cavalo e De la Rúa-Cavalo) estava fazendo o dever de casa certo? E Malan fala por quem?

E é preciso dizer para a opinião pública, sem disfarces, que os fundamentos econômicos do governo FHC não são sólidos como se propaga. Os indicadores econômicos que têm sido publicados, referentes aos aumentos de tarifas públicas, combustíveis, inflação e desemprego, assim como às dificuldades no esforço exportador, nas contas correntes, nos investimentos na área energética, no crescimento do PIB e em outros setores, apesar dos comentários e interpretações distorcidos e adocicados da grande imprensa, apontam para crescentes dificuldades econômicas, cujo final dramático só pode ser evitado justamente com a vitória do candidato popular e o rompimento com o atual modelo econômico.

Então, o risco que vivemos não é o “Risco Lula”. É o Risco FHC-Serra, é o Risco Continuismo, é o Risco Deixar como está. Se a oposição não disser isso, corre o risco de se deixar envolver pelo terrorismo tucano.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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