Reversão de expectativas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Reversão de expectativas; 02 jun. 1998.

 

 

Avolumam-se os indícios de uma reversão de expectativas nos cenários políticos. As pesquisas representam a ponta mais visível dos sentimentos que povoam as ruas. Crescimento da resistência popular, radicalização de manifestações sociais e divisões nos setores dominantes são outros sinais desse processo.

As bases destas mudanças já eram visíveis há meses, com o agravamento das contradições inerentes ao governo FHC: eleito com as promessas dos cinco dedos de uma mão que nem era a sua, fazia o oposto do que prometera.

Desemprego, caos na saúde, desagregação educacional, abandono dos pequenos agricultores, insegurança completa  – estas consequências da política governamental minavam irremediavelmente a publicidade que apresentava o Real como a salvação do Brasil.

Criara-se uma situação surrealista: o descontentamento crescia, mas as pessoas não o vínculavam aos planos e à ação do presidente. A imagem positiva do governo era sustentada por uma imprensa preocupada em funcionar como agência de publicidade do poder e não como informativo independente.  Mas, embora todos achassem improvável, bastaria uma ação ou uma frase impensada, para quebrar o encanto e fazer o rei aparecer nu, como responsável pelas dificuldades do povo e pela realidade perversa do país.

A vaidade de FHC o traiu. Achou que podia jorrar impropérios e praticar ações desconexas impunemente. Da omissão diante do incêndio de Roraima aos ataques contra o que chamou de aposentados vagabundos, do endurecimento ante os professores em greve à classificação dos flagelados e dos manifestantes de Brasília como baderneiros, FHC só conseguiu acentuar a quebra do encanto.

É impossível conter esta reversão de expectativas? Não. A mídia voltou a apresentar uma inconfundível unidade no ataque à esquerda, ao MST e à Lula, enquanto sustentar FHC de todos os modos. Estrategistas elaboram fórmulas salvadoras, apoiados no aparelho de Estado e no poder econômico das multinacionais.

É possível manter a reversão das expectativas? Sim. Desde que a esquerda se una na linha de ataque a FHC, aponte claramente o que pretende fazer para tirar o Brasil do buraco em que foi lançado e crie uma campanha eleitoral ainda mais massiva do que foi a de 89. Esta é a maneira de impedir que FHC dê a volta por cima. Se Lula e a esquerda se perderem em mesquinharias, mais uma vez correm o risco de não aproveitar as oportunidades da história.

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