Retrospecto de dificuldades

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Retrospecto de dificuldades, n. 377, 20 dez. 2003.

 

 

Existe angústia sobre o quadro brasileiro, refletida nos reclamos de crescimento da produção, dos empregos e da renda. As políticas econômicas fizeram a inflação e o câmbio alcançarem uma estabilização relativa e obtiveram resultados positivos na balança comercial e nas contas correntes, mas criaram efeitos ambíguos. Associada a juros exorbitantes, a estabilização tem funcionado para atrair capitais de curto prazo e deixar os banqueiros deliciados. Mas não tem baixado os juros a níveis que estimulem os investimentos e a produção, reduzam o desemprego, e elevem ou, ao menos, mantenham estável a renda dos trabalhadores.

Elas partiram do pressuposto de que a crise poderia ser superada com mais ajuste fiscal e maior credibilidade nas relações com o FMI. A superação do surto inflacionário e a valorização do real frente ao dólar foram alcançadas por meio de uma brutal combinação de corte de gastos públicos, arrocho do crédito, juros elevados e contenção salarial, que conduziu vários setores à recessão e agravou o quadro social deteriorado. Embora alguns suponham que a estabilidade obtida permitirá um crescimento embalado na atração de capitais externos, tendo o acordo com o FMI como aval e blindagem, há muitas incertezas a respeito.

A retomada das atividades industriais não aponta para uma curva ascendente firme da economia. Os investimentos diretos continuam reduzidos. Excetuando os setores voltados para o mercado externo, os demais não parecem convencidos da capacidade de crescer. A estabilidade monetária  está longe de ser suficiente para o crescimento, mantidas as altas taxas de juros, a elevada carga tributária, os minguados investimentos públicos e as incertezas quanto ao câmbio.

O Brasil ainda é vulnerável às condições externas. A dívida ainda é muito grande, as exportações são pequenas em relação aos compromissos e a valorização do real aumenta o risco dos investimentos. As reservas estão aquém de uma blindagem segura. E o país corre riscos, seja se os EUA elevarem sua taxa de juros para atrair capitais, seja se o fluxo de capitais para o euro tornar-se gigantesco, causando distúrbios significativos nas economias nacionais desprovidas de grandes reservas. Afora isso, a produção e a exportação agrícolas aumentaram, melhorando o superávit comercial e as contas externas, mas não desempenharam qualquer papel na elevação do emprego. E, apesar dos esforços e programas do governo, não houve redução do desemprego, nem recuperação da renda da massa da população trabalhadora.

Em outras palavras, olhando o quadro como um todo, não há compatibilidade entre o otimismo de alguns e a realidade econômica mundial. Também não existe compatibilidade entre a situação macroeconômica brasileira e o crescimento da produção. E nos setores que escaparam da recessão, não há compatibilidade entre o crescimento da produção e o crescimento do emprego e da renda. Apesar dos esforços para transitar para um novo modelo de crescimento, o retrospecto ainda é de grandes dificuldades.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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