Retórica barata

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Retórica barata, n. 260, 01 set. 2001.

 

 

Pois é, agora FHC impõe ao povo brasileiro a opção de “exportar ou morrer”. A respeito, desde o século passado tivemos variações de todos os tipos, começando por “exportar é a salvação”, passando por “exportar é o que importa”, até chegar à derradeira morte, se não conseguirmos vender para o resto do mundo o que produzirmos.

O pior é que toda essa encenação não passa de retórica barata. Do jeito que as coisas vão, estamos arriscados a morrer, mesmo exportando o máximo possível. Não é apenas a retração econômica mundial que demarca limites, tanto ao volume das exportações, quanto aos valores que elas conseguem. Nem sequer o fato de que os juros e os tributos praticados no Brasil, apesar do câmbio favorável, constituem um impeditivo a qualquer esforço sério para elevar as exportações.

Todas essas dificuldades, porém, poderiam ser superadas através de uma política diferenciada de juros e de impostos sobre os exportadores. Com isso, a produção brasileira seria direcionada para o exterior, ao mesmo tempo que haveria um novo processo de substituição de importações. No entanto, como no passado, a adoção de uma política desse tipo não representaria qualquer desafogo sobre o lombo do povo brasileiro, sobre os desempregados, sobre os pequenos agricultores, sobre os micro e pequenos empresários. Com o setor dominado por oligopólios que empregam pouca gente, os dividendos obtidos se concentrariam em alguns grupos empresariais privilegiados, cabendo ao povão, mesmo desempregado, pagar a conta da política diferenciada.

Além disso, tal política tende a tornar ainda mais selvagem a disputa entre os diversos setores do empresariado para escapar da morte anunciada. Não é por outra razão que o governo, mesmo tendo maioria parlamentar, tem fugido da reforma tributária como o diabo foge da cruz. E, por fim, há o fato trágico de que todo o superávit em moedas fortes estará voltado para o pagamento do serviço das contas externas. Entrará por uma porta e sairá por outra, podendo agravar ainda mais as contradições em que se debate o modelo FHC/Malan.

Esse modelo chegou naquele ponto em que tudo que fizer é de alto risco econômico e político. Por isso, quanto mais necessário se faz adotar medidas, mais sonora é a retórica de FHC, na esperança de que ao menos ao áulicos acreditem nela. Mas a reação da platéia, escolhida a dedo para estar presente ao circo do Planalto, durante a posse do ministro Sérgio Amaral, não foi das mais auspiciosas. Os pesos pesados da indústria deram sua resposta na hora. Uma coisa é a retórica, outra coisa é a prática. E eles já não acreditam na prática do governo, que não pode mais lhes propiciar os mesmos privilégios de há pouco tempo.

A fonte está secando e só o ministro Malan continua impávido em seu fundamentalismo da cartilha antiga do FMI. Entre esta e a carta de intenções exportadoras balança a cabeça de FHC. Se ficar na retórica para agradar à banca internacional, perde o restinho de apoio da base social que o vem sustentando no poder. Se for para a prática, vai ter que se haver com os donos do hot money, apesar da flexibilidade com que o FMI finge tratar a Argentina. Em qualquer dos casos, a crise social se aprofunda. Do que mesmo o presidente estava rindo contente ao proclamar seu berro “exportar ou morrer”?

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