Rescaldos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Rescaldos, n. 276, 22 dez. 2001.

 

 

2001 chega ao fim com a campanha eleitoral subindo de tom e determinando os passos e atitudes dos atores políticos. O sinal mais evidente disso reside no descolamento entre a vontade do presidente e do núcleo duro de sua equipe e o restante de sua base de sustentação. O sucesso nas mudanças na CLT foi tão custoso e desgastante que até mesmo aliados de fé duvidam que tenha valido a pena. E as disputas em torno do novo salário mínimo e da redução do IR só comprovaram que, mais do que antes, o governo vai fingir que manda e sua base vai fingir que obedece.

A impopularidade do presidente, que parece fadada a manter-se inalterada, seja pelas incertezas da economia, seja pelas conseqüências sociais de suas políticas (a idéia de que possamos nos tornar uma grande Argentina amedronta
a todos), empurra a base do sistema a atitudes contraditórias. Ela sente-se compelida a defender propostas populares como condição para ter chance nas eleições de 2002. E como propostas populares não fazem parte do cardápio da
equipe FHC, antes pelo contrário, isso deve aumentar o fosso entre o apoio implícito ao Planalto e o discurso diferente para o povão.

Isso cria fissuras no bloco do poder, com uma multiplicidade de projetos que tendem a se transformar em conflitos de interesse. Afora isso, em sua ânsia de mandar até o último minuto, adiando a decisão do PSDB em torno de seu
candidato, FHC deixou o flanco aberto às iniciativas de seus aliados e minou a unidade do partido e da aliança que o elegeu.

É verdade que o PSDB ainda conta com a ala governista do PMDB para ampliar seu horário na televisão e sua capilaridade pelo interior do país. No entanto, embora uma parte do PMDB tenda a marchar com o governo, dificilmente esse partido deixará de sair rachado de suas prévias, em qualquer das hipóteses, agravando o quadro de divisão no bloco do poder.

O PFL, por seu lado, ao catapultar Roseana Sarney à candidatura presidencial, conseguiu apresentar a maior novidade desta campanha. Com a manutenção das intenções de voto em torno de 20%, a governadora maranhense consolida-se como uma opção real das elites para enfrentar Lula, embora criando uma cisão no campo governista. Na prática, o PFL lançou-se em desafio aberto à liderança do presidente e trabalha para consolidar-se como a melhor opção das elites para derrotar a esquerda.

Como os outros partidos da base governista, o PPB e o PTB, só contam como coadjuvantes de algum dos principais disputantes, o quadro situacionista é de divisão aberta, quase certamente com dois candidatos, sendo Roseana Sarney um deles. Como as elites não supõem que Lula vença no primeiro turno, elas presumem que a aliança que elegeu FHC se refaça na segunda rodada, para que o melhor de seus pretendentes derrote o candidato petista.

No meio campo, o PPS manteve seu esforço para consolidar Ciro como candidato de oposição, mas encontra muita dificuldade para conquistar credibilidade, o mesmo ocorrendo com o PSB e seu candidato Garotinho, cujo perfil não difere muito do apresentado pelo ex-governador do Ceará.

Já o PDT e Brizola vivem uma situação existencial. Depois de investirem numa possível união entre Itamar e Ciro e cifrar esperanças na filiação de Itamar ao partido, para lançá-lo como candidato do partido, Brizola sente-se traído
e abandonado. Nega-se a fazer aliança com o PT, não sabe se apoiará Itamar se este conseguir a indicação pelo PMDB, desconfia das intenções de Ciro, abomina Garotinho e pensa até em lançar-se candidato. Talvez não merecesse situação tão melancólica.

No PT, parece consolidada a candidatura Lula, embora o partido esteja metido numa camisa de força ao ter inventado a novidade democrática das prévias. Lula só a contragosto vai submeter-se a elas, enquanto procura empurrar a decisão sobre sua candidatura o mais possível, na suposição de que terá uma visão mais clara dos cenários possíveis a partir de março. Em outras palavras, é o próprio Lula quem ainda não quer campanha na rua.

Quanto às demais siglas no campo da esquerda, elas também só contam como coadjuvantes. Tendem, pois, a agregar-se em torno de Lula ou de uma das candidaturas que se apresentem como de esquerda ou de centro-esquerda. Situação que Roseana parece querer aproveitar ao tornar público seu passado esquerdista e sua aliança com o PCdoB no Maranhão.

Chegamos, assim, ao final de 2001 com um quadro político que mais parece um rescaldo. As brasas da campanha eleitoral estão crepitando, mas, com exceção de Ciro e, agora, de Roseana, não falta quem lhe jogue água para evitar que o fogo se espalhe antes do tempo que ache mais adequado a seus próprios interesses. Só o tempo dirá quem estava com a razão.

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