Repulsa e sedução

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Repulsa e sedução, n. 325, 14 dez. 2002.

 

 

Quanto mais se aproxima a transmissão de governo, mais a grande burguesia corporativa e seus representantes políticos realizam movimentos simultâneos de repulsa e sedução em relação a Lula e ao PT.

No movimento de repulsa, algumas parcelas continuam empenhadas em demonstrar que não existe fome nem miséria no Brasil. Com a cumplicidade da ONU, Fernando Henrique recebeu um prêmio pela “melhoria dos indicadores humanos no Brasil”, enquanto o PSDB abriu baterias contra o Programa Fome Zero. E aumentaram as pressões inflacionárias e cambiais para forçar a manutenção da atual política financeira, com Armínio ou sem Armínio.

Entretanto, outras parcelas tentam um envolvente movimento de sedução. Fernando Henrique, por exemplo, ao mesmo tempo que morde, também sopra e lambe, dando conselhos estapafúrdios que ninguém lhe pediu. O presidente do FMI foi só sedas e elogios. E Bush, não apenas colocou de escanteio O’Neil e Reich, dois defensores de uma linha dura contra o governo Lula, como recebeu o presidente eleito do Brasil com pompa e circunstância, prometendo colaboração e boa vontade.

Talvez tenhamos movimentos não concatenados, mas ambos visam a mesma coisa. Por um lado, desqualificar o programa de mudanças do governo Lula, espalhando estatísticas e falsidades sobre os fundamentos em que ele se assenta. Por outro, cooptar uma parte do futuro governo para dar continuidade às políticas neoliberais, limpar o programa Lula-presidente de qualquer sinal de “radicalismo” e minar a frente única que elegeu o antigo líder metalúrgico.

Nesse contexto, também por um lado, o governo popular não pode frustrar as demandas da frente única (ou pacto social) formada entre os trabalhadores urbanos, trabalhadores rurais sem terra, lavradores, pequenos e médios proprietários ou rendeiros, funcionários públicos civis e militares, professores e outras camadas subalternas e intermediárias, representadas pelo PT e pelos aliados do primeiro turno, e a grande massa dos pequenos e médios empresários e mesmo setores do grande empresariado, representados pelo vice Alencar e pelos partidos que se agregaram no segundo turno. São demandas que exigem as mudanças consubstanciadas no programa Lula-presidente e não podem ser adiadas.

Nesse sentido, nunca é demais lembrar que certos setores burgueses e nacionalistas desse pacto parecem bem mais radicais do que os chamados “radicais do PT”. E podem rompê-lo justamente por não verem atendidas as demandas que se contrapõem às políticas neoliberais e são essenciais para sua própria sobrevivência.

Por outro lado, se parcelas da grande burguesia corporativa vacilam na forma como tratar o governo Lula, e oferecem charme ao invés de bordoadas repulsivas, não custa nada atraí-las e isolar os trogloditas. Qual o critério para seduzir, sem cair na sedução? Não prejudicar os grandes interesses populares, nacionais e democráticos, realizando as mudanças demandadas e prometidas. O resto é complemento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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