Rememorando polarizações

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Rememorando polarizações, n. 489, 04 mar. 2006.

 

 

Essa história da polarização entre a direita, representada pelo PSDB e PFL, e a esquerda, representada pelo PT, PSB e PCdoB, ser falsa ou verdadeira, traz à memória alguns exemplos do passado.

Na década de 30 do século passado, comunistas e social-democratas alemães acusaram-se de estar criando uma falsa polarização com o perigo fascista. Marcharam digladiando-se para as eleições, cada um tomando o outro como inimigo principal, e foram vencidos pelos nacional-socialistas de Hitler. Trocando uma polarização pela outra, abriram espaço para o nazismo chegar ao poder por vias “democráticas”.

É difícil dizer se Hitler teria ou não chegado ao poder por outros meios, caso houvesse sido derrotado nas urnas. Mas, comunistas e social-democratas talvez tivessem conseguido resistir mais fortemente, se houvessem levado em conta a verdadeira polarização.

Nessa mesma época, os comunistas chineses propunham a seus inimigos do Guomintang suspender a guerra civil e unir forças para combater a ameaça japonesa. Chiang Kaishek, pela direita, e uma parte do PC, pela esquerda, consideravam isso uma falsa polarização. A guerra civil prosseguiu, e foi preciso perseverar por seis anos, para demonstrar qual era a verdadeira polarização.

Nesse meio tempo, os exércitos de Chiang infligiram uma dura derrota às bases comunistas do sul, obrigando-as a iniciar uma retirada estratégica para salvar suas forças. Mao foi, então, guindado à direção do PC e ao comando do exército vermelho e, antes mesmo de escrever as obras que nortearam a revolução daí em diante, ele mudou o sentido da retirada estratégica. Substituiu-o pelo de grande marcha do exército vermelho, para colocar-se na linha de frente de resistência à invasão japonesa.

Logo depois, defrontou-se com a prisão de Chiang por comandantes nacionalistas partidários da polarização contra o Japão. Eles pretendiam fuzilá-lo, com o que concordava uma parte do PC. Porém, coerente com a idéia da polarização principal contra o Japão, a direção do PC atuou no sentido de impedir que Chiang fosse morto, porque isso representaria aguçar justamente a polarização entre comunistas e nacionalistas.

Chiang acabou aceitando o acordo para a concretização da frente única. E teve que colocá-lo em prática quando o Japão, um ano depois, iniciou sua ofensiva geral para dominar a China. Embora o tempo todo operasse como se a polarização real fosse entre ele e os comunistas, a história lhe mostrou não só quem tinha razão, como lhe ensinou que se deve tratar essa questão com mais tino político e menos rancor ideológico.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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