Recordar é viver

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Recordar é viver, n. 264, 29 set. 2001.

 

 

Há cinqüenta anos atrás, os jornais noticiavam declarações do ministro João Alberto, do segundo governo Vargas, segundo as quais os americanos preparavam-se ativamente para a continuação da guerra na Ásia, enquanto o Brasil mantinha-se alheio à situação mundial. O ministro chamava a atenção para a possibilidade de serem submetidas ao regime de racionamento as exportações dos Estados Unidos para o nosso país, acrescentando que o povo americano estava “psicologicamente preparado para uma guerra externa”, convencido de que, só pela força das armas, seria possível “manter a democracia”.

Era notícia também “um grupo de oficiais comunistas” que havia se tornado “centro orientador do Clube Militar e de sua revista”, configurando “os sinais preliminares de um extenso e premeditado renascimento comunista do país”. “Não emergiu ainda da ilegalidade subterrânea, em que tem vivido, nenhum chefe ou organismo. Mas uma transformação de ambiente se está operando”, reclamava O Globo, exigindo o fim da tolerância com a esquerda.

Os tempos são outros. Mas o Império americano continua convencido de que “só pela força das armas” pode “manter a liberdade”. Ministros de FHC e o próprio também reclamam do alheamento na “cruzada” contra os bárbaros, embora procurem, no caso, minimizar as conseqüências do envolvimento guerreiro dos EUA sobre o Brasil. E os ventos gelados da fascistização do Estado americano alimentam os sonhos dos reacionários tupiniquins de cercear, também aqui, as liberdades políticas e civis, já não mais contra o renascimento comunista, mas contra a possibilidade da oposição popular vencer as eleições de 2002, o que para eles é a mesma coisa.

A guerra do Império mal começou, e seu desarranjo econômico e político se agrava a olhos vistos. E, quanto mais se agravar, mais as forças políticas que dominam o poder no Brasil se enredarão em suas disputas mesquinhas pelas sobras da globalização, e da guerra, ameaçando a consolidação da democracia e tornando ainda mais desagregadoras as condições sociais em que vive nosso povo. Assim, recordando o ministro João Alberto, há 50 anos atrás, o povo brasileiro e suas forças políticas não podem ficar alheios ao que está ocorrendo no mundo.

Vale a pena lembrar, porém, ao contrário do que desejava o ministro de Vargas, de que naquela época as forças populares e nacionalistas, entre as quais oficiais à frente do Clube Militar, lutavam em defesa do nosso petróleo e contra o envio de brasileiros para morrer na guerra da Coréia. Esses dois movimentos de cunho popular desaguaram na constituição da Petrobrás e na recusa do governo em participar daquela guerra de agressão do Império americano.

Não seria o momento de voltar a sustentar um movimento pela paz e contra a guerra, de modo a evitar as conseqüências danosas do terrorismo de Estado do Império e do fundamentalismo sobre nossa economia, nossa sociedade e nossa democracia?

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