Recado confirmado

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Recado confirmado, n. 218, s/d.

 

 

Com alertas, o segundo turno das eleições em 31 cidades confirmou o recado das urnas do primeiro turno. Há uma onda de insatisfação e descontentamento contra o governo FHC e contra a situação de pobreza e desmantelamento do país, que elevou principalmente o PT e a esquerda ao primeiro plano da política nacional, numa amplitude bem maior do que em 1988. Das 31 prefeituras em disputa no dia 29/10, a esquerda ficou com 19, sendo que só o PT obteve 13, das quais 5 capitais. Das 26 capitais do país, a esquerda está à frente da metade. E, das 57 maiores cidades do país, ela está no governo de mais de 30.

As grandes e médias cidades são o epicentro dessa onda que, sob o impulso da insatisfação das grandes massas pobres, transformou-se numa “onda vermelha” e tende a espraiar-se também pelas cidades pequenas do país. Entretanto, o segundo turno também acendeu alguns sinais de alerta, cuja subestimação pode ser fatal ao futuro desse impulso à esquerda. Em especial, fez renascer o populismo, que alguns cientistas políticos teimavam em considerar enterrado, como arma de disputa contra a esquerda.

Já sugerido por ACM, desde que se atirou em sua cruzada para “acabar com a pobreza”, esse populismo mostrou grande eficácia. Seja pela direita, como em Belém, Fortaleza, Recife e Curitiba, ao impor aos candidatos da esquerda batalhas duríssimas, e em São Paulo, onde fez com que Paulo Maluf ressurgisse das cinzas, todas utilizando-se das baixarias e do reacionarismo do anos 60. Seja pela esquerda, como no Rio, onde César Maia construiu sua vitória com um discurso que atraiu parte da esquerda para seu redil.

Esse populismo tem extrema clareza de que sua meta fundamental é, nos próximos dois anos, conquistar “os pobres e humildes”, levando-os a acreditar, como disse Maluf, que seu compromisso é servir a eles e não aos ricos, garantindo-lhes renda, segurança e desenvolvimento. O mesmo discurso de ACM e de Maia, para disputar com a esquerda mais de 80% do eleitorado brasileiro.

Numa manobra estratégica, forçada pelo crescimento da esquerda, em especial do PT, as elites forjam duas vertentes populistas para realizar um movimento de cerco e aniquilamento. Pela direita, vão jogar tudo para polarizar no estilo truculento e anticomunista, forçando a esquerda a descaracterizar seu programa e procurar guarida e proteção no centro. Pela esquerda, também tentarão empurrar a esquerda para o centro, mas num duplo movimento, por um lado de atração, por outro de isolamento.

Dessa forma, a batalha de 2002 já está nas ruas, com uma correlação de forças favorável à esquerda, mas com fatores novos e, de certa maneira, inesperados e contraditórios. A polarização esquerda-direita tornou-se não só inevitável, como ganhou contornos mais complexos e desafiantes. Se a esquerda não souber interpretar esse recado das urnas e não tomar os pobres e marginalizados como centro de sua estratégia, 2002 pode ser frustrante.

 

 

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