Realidade e perspectiva

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Realidade e perspectiva, n. 340, 05 abr. 2003.

 

 

Dados recentes do IBGE trouxeram à luz a verdadeira situação dos fundamentos econômicos brasileiros. O Produto Interno Bruto de 2002 foi de 449 bilhões de dólares. Caímos do 7º lugar na lista dos maiores PIBs do mundo para o 12º lugar. Entre 1998 e 2002, o crescimento do PIB brasileiro foi de 1,6% ao ano, abaixo da média de 4,6% dos países emergentes e de 3,2% mundial.

Mantidas as condições atuais, o Brasil deve crescer de 1,5% a 1,8% em 2003, um pouco acima do crescimento populacional de 1,4%. A renda por habitante manteve-se estagnada em 7.576 reais ou 2.576 dólares, enquanto o salário real caiu 8,2%. Desabou, assim, a mentira da melhoria da renda da população do governo FHC. O problema é que as estimativas para 2003 apontam uma redução ainda maior dessa renda.

O desempenho medíocre da economia brasileira tem suas raízes na política econômica dos governos FHC. Ela rebaixou as taxas de investimento a 18% ao ano, em média, quando o mínimo para um crescimento de 4% deveria ser uma taxa de 25% do PIB. Dos 18,7% do PIB investidos em 2002, 17,9% foram provenientes de poupança interna (pública e privada) e 0,8% de poupança externa. Em outras palavras, os famosos investimentos estrangeiros dirigiram-se para a especulação, não para a produção.

Para crescer, é preciso investir na produção. E, para investir na produção, é necessário aumentar a poupança interna e torná-la capaz de transformar pelo menos 25% do PIB em novo capital bruto. Como fazer isso com os atuais gargalos e armadilhas herdados do passado? Com a continuidade da política monetarista do governo FHC será difícil. Mesmo que as reformas previdenciária e tributária venham a recompor a poupança pública, isso não ocorrerá a curto prazo. Assim, antes que o capital político do governo petista se esvaia junto com a queda da renda da população, é preciso buscar caminhos criativos que permitam romper com essa situação, retomar o crescimento e superar a pobreza.

Essa é uma missão da política. Que deve orientar a área financeira a reduzir a necessidade de pagamento a capitais externos de empréstimos e contingenciar a movimentação dos capitais voláteis. Que deve exigir a modificação da participação do crédito bancário no PIB, atualmente abaixo dos 26%, embora a participação do sistema financeiro na riqueza nacional tenha subido de 6% para 8%, com base nos juros agiotas de 56% ao ano sobre empréstimos para a produção e o consumo.

A política deve impor a redução da tributação sobre a produção e sobre o consumo da população de média e baixa renda. E, tão ou mais importante do que tudo isso, deve mobilizar todas as forças sociais para massificar a produção dos grandes contingentes da população em estado de miserabilidade e pobreza. É fundamental dar um salto da produção zero para a produção um ou dois, mesmo que isso ainda signifique subir apenas ao patamar da subsistência. A massificação do nível de subsistência dos milhões cuja renda é inferior a 150 reais representará uma enorme economia financeira para o Estado e um reforço na poupança interna. Voltaremos a isso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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