Radicalização

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Radicalização; 25 mai. 1998.

 

 

De um momento para o outro, o fantasma da radicalização parece rondar o país. Ocupações, saques, manifestação, confrontos –  tudo recebe o termo pejorativo de radicalização ou, como preferem os presidentes ACM e FHC, baderna.

À direita e à esquerda, análises apressadas falam em infiltrados ou pequenos grupos radicais, para explicar os acontecimentos. Preferem apontar bodes expiatórios a procurar as causas do que está ocorrendo.

Seja numa ditadura (vide Indonésia), ou numa democracia (real ou fictícia  – vide Los Angeles, Bruxelas, Genebra) a radicalização acontece quando as insatisfações, os descontentamentos, as necessidades não atendidas, alcançaram seu ponto de saturação.

Aí, tanto faz que uma liderança, ou um grupo infiltrado, incentive a radicalização. Basta um motivo aparentemente banal, como um aumento de preços, em Jacarta, ou o espancamento de um motorista negro por policiais, em Los Angeles, para colocar multidões em movimento descontrolado.

Poderiamos acrescentar a isto a ausência de referências políticas para os quais os insatisfeitos se voltem numa perspectiva de mudança. Em Jacarta, elas não existiam em virtude da ditadura. Em Los Angeles, também não, em virtude do pluralismo exacerbado. Sem lideranças reconhecidas, capazes de canalizar para soluções negociadas o descontentamento prestes a supurar, o controle pacífico das manifestações torna-se uma ficção e é substituido pela força bruta, mesmo que sob o comando de democratas.

No Brasil, a esquerda, e também a direita, deveriam se perguntar por que não percebem a profundidade do descontentamento que se alastra pelas camadas populares e intermediárias. E por que, neste momento, o PT, CUT e outros movimentos organizados parecem perder sua tradicional capacidade de serem reconhecidos como referências das demandas sociais.

Sem entender isto, a direita vai querer se aproveitar da situação para golpear ainda mais a frágil democracia brasileira, pensando que pode desdenhar a experiência de Suharto. Pode se dar mal.

E a esquerda vai pedir moderação para quem não a ouve, correndo o risco de levar a culpa por uma situação que não criou. Melhor seria que procurasse retomar seu papel de referência radical dos insatisfeitos. Talvez assim possa fazer com que o descontentamento social desague em ações organizadas, que paralizem a direita, ampliem a democracia e mudem a política do país.

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