Rabo de palha

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Rabo de palha, n. 515, 02 set. 2006.

 

 

O ex-presidente FHC resolveu dar o tom da campanha tucana, daqui para frente. Disparou contra a candidatura petista, afirmando que as denúncias de corrupção no governo Lula empurraram o Brasil para o ponto mais baixo de sua história. Repetiu, pelo menos por três vezes, que não é igual a Lula. E reiterou que não fez corrupção do Estado através de nomeações partidárias, e que lugar de ladrão é na cadeia. Deixando implícito que Lula e os membros do PT são ladrões, incitou seus correligionários a botarem fogo no palheiro.

Como FHC é dado a esquecer o que escreve e o que faz, provavelmente não lembra das privatizações, da compra de votos para a reeleição, da criação do valerioduto pelo tucanato e da existência do sistema sanguessuga desde a sua época. Para não ir além das privatizações, basta lembrar que, através delas, o Estado financiou a compra da maior parte das estatais, por empresas privadas, a um valor escandalosamente abaixo de seu valor real. Comparado ao dinheiro envolvido nas negociatas privatistas, o escândalo do chamado mensalão é fichinha. E, que se saiba, Lula não privatizou nenhuma estatal.

No governo FHC, todos os nomeados eram do PSDB, do PFL e de partidos aliados. Portanto, nomeações partidárias. Os casos de corrupção vindos a público foram abafados por ele e seus ministros, e a Polícia Federal ficou praticamente inoperante. Somente o Ministério Público conseguiu trazer algo à tona. Que se saiba, FHC não prendeu nenhum dos ladrões de seu governo, nem fez empenho para vê-los processados.

É verdade que o governo Lula e o PT demoraram a descobrir as irregularidades que vinham ocorrendo em seu meio, apesar dos indícios fortes, assim como a tomar medidas rápidas para afastar os envolvidos, mesmo dando-lhes o benefício da dúvida. No entanto, apesar das vacilações, mais de 50 autoridades foram afastadas do governo, o procurador-geral da República denunciou 40 deles como participantes de “organização criminosa”, e a PF tem denunciado à Justiça uma quantidade de “colarinhos brancos” sem paralelo na história brasileira.

Mas FHC tem alguma razão. Ele não é igual a Lula. Este pode não haver seguido a política econômica mais adequada e ter feito concessões políticas que não precisaria fazer. Mas basta perguntar para qualquer brasileiro, de qualquer camada social, quem foi que empurrou o Brasil para o ponto mais baixo de sua história, que a esmagadora maioria responderá, com certeza: FHC. Assim, se FHC decidiu entrar na campanha de peito aberto, deveria lembrar-se de que tem rabo de palha. Botar fogo no palheiro numa situação dessas é um perigo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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