Rabo de fora

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Rabo de fora, n. 463, 27 ago. 2005.

 

 

Embora a tese de que a direita trama um golpe contra o governo Lula não seja tão fácil de demonstrar, vez por outra surge algum rabo de fora para colocá-la em pauta. Pelo menos é o que se pode pensar quando boa parte da grande imprensa, promotores públicos e políticos do PFL aceitam e amplificam, sem qualquer resquício de dúvida, acusações contra o ministro Palocci.

Se o ministro estivesse naquela lista de petistas que a direita considera perigosos para a continuidade da política econômica, talvez não houvesse qualquer surpresa. No entanto, segundo depoimentos insuspeitos de financistas, analistas econômicos e empresários dos mais diferentes calibres, Palocci é a garantia de que a atual política econômica não sofrerá mudanças. Ele estaria, portanto, “blindado”, justamente por contar com o apoio do sistema financeiro e do empresariado.

Se isso é verdade, como supor que representantes de uma parte nada desprezível do setor financeiro e do empresariado tenham tentado dar veracidade às denúncias de Buratti? Como revistas, jornais, deputados e senadores puderam aceitar a evidente afoiteza de promotores e a ausência de provas consistentes, e lançar-se contra aquilo que certos comentaristas políticos já chamam de “ícone” da política econômica?

Isso significa, ou não, que existe um setor considerável das classes dominantes que está pouco se lixando com a chamada “contaminação” da economia pela crise política, e que tem como único objetivo desestabilizar e derrubar o governo Lula? Se tal setor não existisse, e não estivesse conspirando, certamente o incidente contra Palocci jamais teria ocorrido. A burguesia é extremamente competente para evitar deslizes desse tipo. A não ser que esteja dividida e sem domínio sobre os acontecimentos. O que parece ser o caso.

Se é assim, quanto mais o PT estiver na defensiva e se mostrar incapaz de superar sua crise interna, mais esse setor não se incomodará em mostrar seu rabo. Tenderá a atacar inclusive os membros do governo Lula que são simpáticos a outros setores do empresariado, criando novos incidentes e operando para chegar ao impeachment. Convenceu-se de que o PT já se liquefez e que o governo Lula acabou, bastando o depoimento de qualquer meliante para justificar a derrubada.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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