Quem tem medo das reformas?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Quem tem medo das reformas?, n. 319, 03 nov. 2002.

 

 

Lula, afinal, está lá! Não é pouca coisa para um país cujas elites nunca haviam permitido, até pouco tempo atrás, que os setores populares fossem além de uma participação controlada nos legislativos municipais, estaduais e federal. Uma rara conjunção de divisão profunda no poder econômico e político dessas elites, oposição popular às políticas neoliberais do governo FHC, arraigado desejo de mudanças em todas as camadas da população e impossibilidade de mudar as regras do jogo político democrático criaram as condições para a vitória petista.

Mudanças foi o eixo da campanha Lula, que combinou uma ampla política de alianças com uma esforçada mobilização popular. E mudanças, através das reformas propostas no programa da coalizão Lula presidente, terá que ser o principal veio do governo petista, se quiser manter e ampliar o apoio popular e introduzir no Brasil um novo modo de governar. Há no país, porém, quem tenha medo dessas reformas.

De um lado, uma direita que se vale da ignorância produzida tanto pela riqueza quanto pela miséria, acostumada a só amealhar fortuna, e que não quer perder privilégios. Por outro, paradoxalmente, uma ultra-esquerda que só acredita em mudanças para valer se forem tomadas “medidas estruturais e radicais” para acabar com a fome, o desemprego, os baixos salários etc. etc., como afirmavam o PSTU e o PCO durante a campanha eleitoral.

Uns têm medo das reformas porque elas vão subverter seus padrões de dominação e exploração. Outros, porque elas podem destruir suas idéias, segundo as quais é tudo ou nada. Ou o Brasil diz não à ALCA, rompe com o FMI, não paga a dívida externa, não paga a dívida interna aos grandes capitalistas, reestatiza as empresas privatizadas e estatiza o sistema financeiro e os grandes monopólios, colocando-os sob controle dos trabalhadores, ou teremos a continuação pura e simples do capitalismo selvagem brasileiro.

Uns vão esforçar-se para impedir as reformas, recompondo suas forças desunidas. Os outros vão ficar contra as reformas para defender seu próprio caminho de mudanças, na suposição de que elas só podem ser conquistadas através da ação direta e impostas por um governo dos trabalhadores, apoiado nas mobilizações e organizações dos trabalhadores e da maioria do povo.

A direita despreza as aspirações populares. A ultra-esquerda não leva em conta que foram justamente as mobilizações e organizações dos trabalhadores e da maioria do povo que fizeram uma escolha clara pelas reformas e colocaram Lula lá para implantá-las. O povo não tem medo das reformas e quer viver sua própria experiência. Uns e outros deveriam ao menos refletir sobre isso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *