Quem tem medo da democracia?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Quem tem medo da democracia?, n. 512, 12 ago. 2006.

 

 

Não deixa de ser bisonha a discussão em torno da proposta da Constituinte, ampla ou restrita, tanto faz. À direita e à esquerda ouvem-se vozes contrárias, com argumentos muitas vezes convergentes.

Alckmin e associados apressaram-se a dizer que o momento não exige a convocação de uma Constituinte. O Congresso existiria, entre outras coisas, para fazer a reforma política, não havendo qualquer sentido em tal proposta, a não ser sua utilização como instrumento de demagogia eleitoral. À esquerda, argumenta-se no mesmo sentido, acrescentando alguns que a correlação de forças levaria a que a direita elegesse a maioria dos constituintes.

Assim, a conjugação de forças foi de tal ordem que os autores e apoiadores da proposta, de fora e de dentro do governo, preferiram meter a viola no saco e concordar que o próximo Congresso faça a reforma política. Afinal, fazer tal reforma, compreendendo fidelidade partidária e financiamento público de campanha, tornou-se uma palavra de ordem comum a todos os candidatos.

As perguntas que não calam são: esse é o tipo de reforma política que o Brasil precisa? Por que não discutir essas propostas à parte da atual campanha eleitoral, com a possível participação popular no processo de discussão? Por que precisamos esperar nova crise profunda e uma mudança na correlação de forças para conquistar o direito de chamar o povo para discutir uma reforma constitucional?

Em outras palavras, por que não aproveitamos a democracia torta que temos para incentivar a participação popular na discussão dos problemas políticos do país, ampliar os espaços democráticos e realizar mudanças na correlação de forças? Que a direita se coloque contra isso, sob os mais diversos argumentos, ainda se compreende. Ela fala de democracia, mas tem ojeriza e medo dela. Como, historicamente, Constituintes sempre representaram momentos democráticos de discussão pública e participação popular, a direita só as aceitou quando não havia outro meio.

Mas que a esquerda, ou parte dela, também tenha medo da democracia e se coloque contra uma Constituinte, sob o argumento da possível derrota, é incompreensível. Se, nas atuais condições do país, a esquerda não tem força, nem capacidade de persuasão, num processo Constituinte, para levar o povo a conquistar reformas parciais de seu interesse, como pensar que ela será capaz de derrubar as classes dominantes? Quem não consegue subir um morro será capaz de escalar uma montanha?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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