Quem impediu as reformas?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Quem impediu as reformas?, n. 345, 10 mai. 2003.

 

 

Está virando senso comum, sem qualquer resposta forte, a afirmativa de que foi o PT que inviabilizou as reformas durante o governo FHC. A prova provada dessa pretensa verdade estaria principalmente na declaração do presidente petista da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, de que “Éramos contra as reformas de FHC por estarmos disputando o poder político”.

Mesmo que todo o PT, naquela ocasião, pensasse como o deputado João Paulo, nem assim isso transformaria em verdade a idéia de que o PT seria o responsável pelo fracasso da aprovação das reformas na era FHC. O PT e mais alguns aliados eram minoria na Câmara e no Congresso, não tinham qualquer força para impedir ou aprovar as reformas. O governo FHC tinha maioria absoluta, aprovou as reformas com as quais a sua base parlamentar concordava, e não aprovou aquelas com as quais a sua base parlamentar não concordava ou em torno das quais estava dividida.

Assim, independentemente do que pensava ou pensa qualquer deputado do PT, quem inviabilizou algumas das reformas da pauta do governo FHC foram os partidos de sustentação daquele governo, e não a oposição. Por outro lado, é verdade que os petistas, seja pelos motivos do deputado João Paulo Cunha, seja por discordância real com o conteúdo das reformas propostas por FHC, posicionaram-se contra tais propostas de reformas, mas não contra a necessidade das reformas.

Nisso residem algumas das divergências a respeito das atuais propostas de reformas do governo Lula, hoje presentes dentro do próprio PT. Este partido parece não haver realizado a discussão necessária para esclarecer suas reais divergências de conteúdo com as reformas propostas na gestão FHC. Parece haver se contentado com a unidade formal de simples oposição a elas. Agora, porém, que está no governo e tem que levar à prática as reformas que o país reclama, a discussão em torno do conteúdo das mesmas está vindo à tona com muita força, já que o problema não consiste em fazer ou não as reformas, mas qual reforma fazer.

Em outras palavras, como a discussão não pode restringir-se à forma, mas ao conteúdo complexo das reformas, seria necessário um tempo mais prolongado para alcançar um consenso ou uma maioria consciente. Mas isso parece chocar-se com a tática de realizar as reformas previdenciária e tributária num curto espaço de tempo. O que introduz um novo elemento de discussão, relacionado com a pressa como tática, apesar das resistências internas dentro do PT e dos partidos aliados do governo.

Nessas condições, talvez o governo se veja diante de um emaranhado de discrepâncias, que não desejava. Afinal, como disse o próprio presidente, quem tem pressa come cru. A não ser que alguns dos itens propostos não passem de bodes velhos, a serem retirados no momento oportuno.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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