Quebradeira

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Quebradeira, n. 237, s/d.

 

 

O sistema bem que se esforça para esconder a crise, espantar as más notícias, encontrar bodes expiatórios para os desastres ou, simplesmente, mistificar. Malan, adepto incondicional do mercado, chega a dizer que este exagerou e não está entendendo os fundamentos da economia brasileira, embora conclua candidamente que o Brasil está preparado para passar incólume pela recessão americana, pela crise argentina e pelas turbulências internacionais em gestação.

Grande parte dos oligopólios midiáticos prefere ignorar a influência das tempestades econômicas sobre o Brasil, enquanto autoridades e técnicos se esfalfam para nada dizer sobre as causas das explosões e naufrágio da P-36, para jogar sobre a estiagem a responsabilidade pelo inevitável racionamento de energia e para encontrar explicações mirabolantes para o renitente déficit comercial, apesar de suas constantes promessas de superávits.

Na verdade, como nos casos das rebeliões nos presídios e nas febens, da violência urbana disseminada, do desemprego, do crescimento sustentado prometido que nunca chega e de outras mazelas históricas agravadas ao limite pelas políticas neoliberais, estamos cada vez mais próximos de ler a crônica da quebradeira anunciada. A continuar a atual política de FHC, a Argentina, condenada a uma moratória sem perdão, seremos nós amanhã. Desde que nosso país foi conduzido a privatizações selvagens, abertura arreganhada, busca desbragada de rentabilidade máxima, sem qualquer consideração por suas conseqüências sobre o parque produtivo como um todo e sobre a população trabalhadora, os resultados eram previsíveis e foram cantados em prosa e verso pelos críticos do modelo, então chamados de “bobos” e “fracassômanos”.

Os constantes desastres com a Petrobrás não são culpa do “azar” de seu atual presidente, como insinuou FHC, mas de uma política de pessoal e de manutenção que ignora a segurança dos equipamentos e os conduz ao rápido sucateamento, aos acidentes e à privatização. A crise energética pouco tem a ver com a estiagem, estando diretamente relacionada com a política de privatizações e investimentos do setor, do mesmo modo que a balança comercial está condicionada pelo processo de desnacionalização das telecomunicações, energia e outros setores da economia. Quanto mais esses setores de altas tecnologias “crescerem”, mais dependente o país estará da importação de equipamentos, peças e componentes. Os déficits da balança serão, assim, a face visível de um processo de crescimento seletivo que gera empregos na Espanha, Portugal, Estados Unidos et caterva, mas aqui só cria soluços de queda nas taxas de desemprego.

Nessas condições, por mais que FHC fale em crescimento sustentado e estabilidade política, o que nos aguarda é a quebradeira, a exemplo da Argentina, com todas as previsíveis conseqüências sociais e políticas.

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