PT: recuperar forças

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | PT: recuperar forças, n. 423, 13 nov. 2004.

 

 

Os complicados contrastes dos resultados eleitorais obtidos pelo PT – cresceu no número geral das prefeituras que tinha e nos votos globais, mas muito menos do que esperava crescer e perdeu em cidades importantes – tem conduzido vários governos petistas a realizar movimentos no sentido de consolidar algumas alianças e ampliar outras, com vistas, explicitamente, às eleições de 2006.

Ou seja, há um reconhecimento de que perdeu-se força e de que o aprofundamento da política de alianças é uma das formas de recompô-la. Se ampliar as alianças é justificável e politicamente correto, isso é apenas uma parte do problema. Além dela, coloca-se a questão: que forças foram perdidas? As alianças em curso permitirão realmente recuperá-las ou agregarão forças novas que compensem, na mesma escala, as perdidas?

Tudo indica que o PT perdeu força nas camadas populares, numa escala maior nas classes médias e, em certa medida, nos setores empresariais ligados à produção. O que significa dizer que, se os movimentos de consolidação e ampliação das alianças não forem acompanhados de medidas transparentes que atendam aos interesses e expectativas dessas camadas sociais, corre-se o perigo de intensificar o deslocamento delas rumo à direita.

Do ponto de vista político, o deslocamento de segmentos da base social do PT, no rumo do centro e da direita, pode enfraquecê-lo ainda mais, apesar das alianças, e levar ao próprio enfraquecimento dessas alianças. Ninguém se alia ou se mantém aliado a quem não tem força ou está perdendo força. Aliás, embora a arrogância de algumas candidaturas, nas eleições de 2004, tenha afugentado possíveis aliados e jogado muitos deles para o outro lado do campo, é preciso não desprezar a hipótese de que alguns tenham se bandeado já na perspectiva da perda de força do PT.

A possível aglutinação das forças neoliberais em torno do PSDB, com apelos fortes para conquistar as classes médias e setores populares; a conformação de um bloco intermediário “independente”, incluindo PPS, PDT e setores expressivos do PMDB, que visa introduzir uma cunha forte na esquerda e rachá-la aos olhos populares; e, a aglutinação de forças de centro-esquerda e centro em torno do PT, representam as principais tendências atuais e indicam que, se o PT não conseguir realizar ações firmes e transparentes para recuperar sua base social de modo consistente, os movimentos para ampliar e consolidar suas alianças políticas talvez se mostrem inócuos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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