Provocação premeditada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Provocação premeditada, n. 197, 06 jun. 2000.

 

 

O governador Covas, embora proclamando-se democrata, nega-se a encontrar uma solução negociada para a greve dos professores. Não se restringe apenas a provocar verbalmente os manifestantes, de modo a tornar-se vítima de reações descontroladas; deu-se também ao trabalho de montar uma operação de vulto para golpear o movimento dos professores, intimidar o renascimento das mobilizações sociais, granjear solidariedade da mídia e dos setores políticos e encurralar o PT.

Covas não é um desinformado, nem um bocó. Como governador do mais importante estado do país, sabe perfeitamente, através de seus serviços de informação, que existem grupos de ultra-esquerda e ultra-direita nas mobilizações sociais, e quais são eles. Sabe perfeitamente que tais grupos são minoritários, estão na oposição às atuais direções sindicais, e também em oposição ao PT e fora dele. O governador sabe, por experiência própria, que esses grupos, mesmo quando não estão infiltrados por agentes policiais, são muito suscetíveis a provocações e a cometê-las.

O governador Covas sabe, ainda, que um líder petista, quando fala em “surrar nas ruas e nas urnas” o governo, está se referindo a surra e derrota políticas, não a agressão física, do mesmo modo que o governador, quando fala em dar um banho de capitalismo no Brasil, está se referindo a um banho de reformas neoliberais, não em colocar o país sob um chuveiro. Sabendo tudo isso, ele mandou aprontar a sala de imprensa do Palácio dos Bandeirantes com o vídeo do presidente do PT discursando, e decidiu demonstrar sua autoridade, mesmo sem escolta, agredindo militantes ultra-esquerdistas acampados em frente à Secretaria de Educação.

O governador sabia o que iria acontecer, e torceu para que aquilo tudo acontecesse, tanto que ordenou que fosse enviada para o local uma equipe filmadora. Tudo, numa típica manobra do ladrão que grita Pega ladrão!, de modo a acuar a oposição e tirar dividendos eleitoreiros, relacionando, com imagens fortes, o discurso de José Dirceu aos acontecimentos provocados pelo próprio Covas.

Num país sério, os que responderam à provocação poderiam ser processados, mas o governador responderia pelo crime de conspiração. Porque sua provocação foi um crime premeditado, para justificar sua intransigência e a repressão contra os grevistas, assim como os ataques ao PT. Por isso, antes de entrar na falsa defesa da democracia promovida pelos atuais detentores do poder, a mídia que está sempre pronta a apoiá-los deveria rememorar Leme e outras provocações e conspirações que envolveram o PT no passado. Isso a ajudaria a investigar melhor a farsa atual, que esconde muito mais do que o destempero de um tucano que, em algum momento do passado, foi contra a ditadura dos outros.

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