Protecionismo e livre comércio

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Protecionismo e livre comércio, n. 450, 28 mai. 2005.

 

 

Após haver decidido retaliar as exportações chinesas, impondo cotas às confecções de algodão importadas pelos Estados Unidos, a administração Bush e a mídia norte-americana aumentaram a pressão sobre a China para mudar sua política cambial, valorizando o renminbi (yuan).

Os Estados Unidos responsabilizam a China pela desvalorização do dólar e pela perda do poder competitivo da indústria norte-americana. A China, por seu lado, considera que as pressões americanas são uma intromissão indevida na sua reforma cambial e que tal interferência, além de piorar o ambiente necessário a tal reforma, incentiva o protecionismo que os EUA combatem nos outros.

A China, como boa parte dos países do mundo, considera que as dificuldades comerciais dos EUA se devem à própria expansão comercial descontrolada desse país e a seus déficits orçamentários. O déficit comercial norte-americano, em 2004, atingiu 618 bilhões de dólares, o equivalente a 6% de seu produto interno bruto. E o déficit orçamentário foi superior a 400 bilhões de dólares.

Nessas condições, não será a valorização do yuan que resolverá os problemas estruturais dos déficits gêmeos norte-americanos. Na verdade, os setores protecionistas dos EUA tentam aproveitar-se do alto déficit comercial com a China para justificar seu completo despreparo para enfrentar o fim das cotas sobre têxteis e desviar a atenção sobre sua própria responsabilidade na criação de uma situação que coloca em risco o equilíbrio de todo o comércio internacional.

A China já declarou que fará a reforma de sua política cambial. Mas não está disposta a realizá-la sob pressão especulativa de um fluxo massivo de hot money, nem a pretexto de salvar os EUA dos problemas criados por eles mesmos. Como todas as reformas que vêm realizando desde 1980, a China valorizará sua moeda em função de seus interesses nacionais e, como declarou, levando em conta as conseqüências dessa medida sobre seus parceiros principais, os países em desenvolvimento.

Nessa mesma linha de ação, a China elevou em 400% as tarifas sobre mais de 70 itens de sua pauta de exportação de têxteis, no sentido de evitar que esses produtos altamente competitivos causem danos às indústrias dos países em desenvolvimento. Não deixa de ser irônico que o pretenso campeão do livre comércio esteja colocando seu protecionismo real totalmente à mostra.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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