Propositivo ou negativo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Propositivo ou negativo, n. 291 13 abr. 2002.

 

 

O candidato Serra, depois de haver armado, contra antigos aliados, um dos mais baixos golpes políticos da presente disputa eleitoral (que, a rigor, oficialmente nem começou), veio a público declarar que a campanha “deve ser de alto nível”, concentrando-se nos debates de “propostas positivas para o país”.

Isso nos faz lembrar as políticas externas norte-americana e de Israel. Os norte-americanos declaram-se a favor do livre comércio, mas sua prática, a exemplo do protecionismo a seu aço, é de livre comércio dos produtos dos EUA para os demais países, não dos produtos destes para os EUA. Israel também se declara a favor da paz, mas considera que a ocupação militar dos territórios palestinos é um ato de legitima defesa dos interesses israelenses, enquanto qualquer reação a tal ocupação é tida como “ato terrorista”, de responsabilidade de Arafat, como se este pudesse controlar cada indivíduo de seu povo.

Assim, na prática, o que Serra quer é que os demais candidatos, principalmente Lula, permaneçam no campo propositivo, evitando suscitar os aspectos negativos e nefastos do governo FHC. Esta estratégia de Serra tem sua razão de ser. Ao evitar que os adversários apontem os aspectos negativos do governo FHC, ele próprio fica livre de ter que defender seu patrono.

Segundo as pesquisas de opinião, o apoio explícito do chefe do governo pode ser um beijo da morte. Assim, quanto mais Serra puder mostrar distância de FHC, mas sem necessidade de criticar aspectos negativos a serem mudados na política do atual governo, mais ele pode debater em seu próprio campo “propositivo”. Pode até inventar outros cinco dedos, até do pé espalmado, promessas que jamais serão cumpridas. E contra isso a oposição não tem remédio, a não ser, como disse Maria Victória Benevides na entrevista ao Correio, que rompa “esse silêncio impiedoso” e denuncie “que quem está a serviço das oligarquias regionais, do grande capital, do atraso, da subserviência, do desmantelamento e desnacionalização da indústria brasileira é a hegemonia tucana”.

Serra também preocupa-se com as denúncias de seus antigos aliados. Conhecedores de todas as falcatruas realizadas em conjunto, estes podem trazer para o cenário político muito mais sujeiras comprováveis do que aquelas apresentadas pelo senador Sarney. Nesse caso, mesmo que Serra tente passar a imagem de bom moço, propositivo, e se esquive de respostas de baixo nível (isto ficará por conta do estado-maior da sombra), tais denúncias tendem a colocar a nu sua verdadeira face e comprometê-lo diante do eleitorado.

Certamente, esse não é o campo de luta da esquerda. Se a gangue dividida em torno da hegemonia do poder quiser se morder até sangrar, mostrando toda a bandalheira que praticava junta, isto é problema dela. Mas isso nada tem a ver com a possibilidade de Lula aceitar ficar exclusivamente no campo propositivo. Se a oposição de esquerda deixar apenas por conta de um Jean Ziegler uma tarefa que é sua, dificilmente fará com que suas conseqüentes propostas positivas sejam entendidas pelo eleitorado.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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