Previsões a conferir

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Previsões a conferir, n. 277, 05 jan. 2002.

 

 

Previsões políticas são, em geral, temeridade. No entanto, detectar tendências faz parte das possibilidades e nunca é demais alertar para o papel que podem desempenhar na conformação dos cenários futuros. Mesmo porque, em
ano eleitoral, a não ser que ocorram catástrofes políticas, como a da Argentina, aliás prevista por 10 em cada 10 comentaristas do Correio, algumas tendências têm estado presentes com tanta freqüência que quase se pode dizer que se repetirão inevitavelmente.

A tendência de enfraquecimento do governo, por exemplo, vem se manifestando desde a crise de 1999, mas tem se agravado com mais celeridade recentemente. O problema reside em que FHC não aceita o fato e procura, a todo custo, reverter tal situação, pretendendo manter inalteradas suas políticas, que ele nega sejam neoliberais. Provoca, com isso, ainda mais a ira da população, e cria constrangimentos para si e para sua base política, podendo levar a um
agravamento a crise social brasileira, que o IBGE jura que não existe, e transformar uma tendência que deve se esvair em outubro ou novembro de 2002 numa crise política de vulto no meio do caminho. Alguém deveria dizer a ele que explosões populares não são um exclusivismo peruano, equatoriano ou argentino.

Relacionada em parte à tendência acima, também se faz presente a divisão no campo dominante. Diante da resistência social e política que esse campo encontra para manter sua hegemonia e continuar dominando como até então, suas diversas representações políticas procuram alternativas, que se traduzem em projetos cujo conteúdo é semelhante, mas os invólucros diferentes. Essa divisão expressa, também, conflitos de interesse em torno de quem deve ser hegemônico e quem deve ser subordinado. Ou, em outras palavras, de quem deve ficar com a proporção maior do bolo e quem deve ficar com parcelas menores. A candidatura de Roseana, no PFL, a teimosia do PSDB em ter candidato próprio e as disputas internas no PMDB são apenas o reflexo desses conflitos intestinos que devem levar o campo conservador a ter pelo menos dois candidatos.

O problema, tanto para eles quanto para a oposição popular, reside em saber até que ponto aquele campo vai marchar desunido, isto é, pelo menos com Roseana e Serra, e a partir de que ponto ele poderá se unir novamente, e em que medida. Em geral, o grau de desunião das elites conservadoras depende menos da boa vontade da oposição de esquerda, ou até mesmo liberal, do que da força que as correntes populares conseguem, ao mobilizar em torno de si a maior parte da população e do eleitorado.

Assim, por exemplo, se Lula fizer uma campanha que leve em conta o grau de insatisfação popular, congregando em torno de sua candidatura a grande maioria do eleitorado de baixa renda (que decide a eleição) e parte do eleitorado da classe média, chegando a 40% ou 45% no primeiro turno, poderemos ter um cenário em que parte considerável do PMDB e de outros partidos que, na maior parte do tempo gravitam em torno do governo ou de seus aliados, se bandeie para a candidatura popular, mesmo que o discurso desta pareça radical para os padrões liberais.

No entanto, se ao final do primeiro turno Lula não houver ultrapassado em muito o patamar de 30% ou 35% dos votos, poderemos ter um cenário em que todas aquelas forças de centro e, inclusive, algumas de centro-esquerda se bandearão para a candidatura das elites, independentemente da doçura do discurso da candidatura popular. Mesmo porque a divisão no campo popular também voltou a se repetir, por motivos que estão relacionados com a estratégia do PT, com as manobras do grupo conservador sobre as forças populares e com uma série de outros fatores que não cabe analisar neste momento. O fato é que elas estão desunidas em torno de diferentes candidaturas e devem marchar desunidas até outubro de 2002.

Aqui a questão também consiste em saber em que medida elas se reunificarão após o primeiro turno eleitoral. Ciro, Garotinho, Itamar e Brizola marcharão com Lula no segundo turno ou lavarão as mãos feito Pilatos? Do que depende isso? Da boa vontade do PT? Da amplitude do discurso de Lula? Ou da força com que Lula e o PT saírem do primeiro para o segundo turno?

Em outras palavras, dado o quadro atual de divisão nos dois campos, e supondo-se que as elites consigam impedir que o Brasil se transforme numa grande Argentina durante os três primeiros trimestres de 2002 (a insurreição popular naquele país talvez as force a serem mais cuidadosas), tudo indica que o resultado eleitoral dependerá, em sua maior parte, da capacidade da candidatura popular vencer no primeiro turno ou demonstrar que está muito próxima disso.

Dizendo de outro modo, parece que tudo depende da candidatura popular possuir uma estratégia de mobilização massiva dos votos das grandes camadas populares marginalizadas e trabalhadoras e de setores consideráveis das classes médias, mobilização que transforme tal candidatura num poderoso ponto de atração até de setores das próprias elites, independentemente das concessões que se façam a elas. E de que as próprias elites não levem os brasileiros ao mesmo desespero que as argentinas levaram seu povo. Previsões a conferir.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *