Pressa e consenso

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pressa e consenso, n. 343, 26 abr. 2003.

 

 

Não existe dúvida de que o governo enfrenta resistências diversas para convencer sua própria base sobre a reforma da Previdência. Não sobre a necessidade da reforma, mas sobre o conteúdo da proposta a respeito da mesma. Afinal, se o próprio governo reconhece que essa reforma é complexa, com questões técnicas de difícil entendimento, seria previsível que surgissem resistências de diferentes tipos em relação a ela.

Assim, pouco adianta transformar a chamada ala radical do PT em bode expiatório das dificuldades governamentais nessa área, ou pretender reduzir as resistências e conquistar o apoio da sociedade através de uma campanha publicitária, por mais pedagógica que ela seja. A complexidade do tema e as divergências de fundo, entre os próprios especialistas do PT e da aliança política que sustenta o governo, a respeito das questões técnicas, apontam para uma difícil conciliação entre o tempo estipulado para enviar a proposta ao Congresso e a conquista de um consenso mínimo na sociedade.

Uma boa dose de bom senso indicaria a necessidade de realizar um debate de mais longo prazo, de modo que a própria sociedade tivesse a oportunidade de entender os problemas que a reforma envolve e chegar a um certo consenso em torno de seus pontos chaves. No entanto, no quadro de pressa estipulado, mesmo que a publicidade programada seja de alto nível e irrepreensível do ponto de vista pedagógico, a ansiedade já está instalada tanto naqueles que pagam ao INSS, quanto nos servidores públicos.

Há uma massa considerável de professores universitários, cientistas, técnicos, militares e outros tipos de servidores altamente qualificados, que já começaram a pedir sua contagem de tempo. Entrarão com o pedido de aposentadoria assim que a proposta do governo for apresentada, se nela estiverem contidos dispositivos que considerem prejudiciais a seu futuro. Neste caso, a publicidade pode até convencê-los de que a reforma apresentada é indispensável para tampar os buracos deixados por 10 anos de governos neoliberais, mas dificilmente os convencerá de que são justamente eles que devem pagar a conta.

Então, além de introduzir um desgaste de difícil compreensão em sua relação com um dos principais segmentos de sua base social, o governo ainda corre o risco de se ver desfalcado de importantes contingentes técnicos e científicos, num momento em que precisa contar com eles em áreas tão importantes como a educação, as ciências e as tecnologias. Resta saber se ele está mesmo disposto a tentar combinar a pressa e o consenso, mesmo sabendo que poderá pagar um preço político caro demais.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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