Prazo: seis meses

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Prazo: seis meses, n. 320, 09 nov. 2002.

 

 

O comentário corrente de nove em cada dez economistas movidos a neoliberalismo é que, no mais tardar, em seis meses após a posse, o governo Lula terá que enfrentar uma inevitável frustração popular. Segundo eles, ninguém agüenta mais do que esse prazo diante de governos que prometeram mudanças.

Seu raciocínio é lógico. Reconhecem, agora, que a reconstrução do país exigirá pelo menos uma década de trabalho árduo, mas consideram inviável criar, em quatro anos, o número de empregos (oito a dez milhões) demandados pela sociedade. Inviabilidade, segundo eles, causado pelo tipo de transição a que está submetida a economia brasileira. Cada vez mais moderna, elevando sua produtividade e competitividade, para produzir maior quantidade de mercadorias, nossa economia reclamaria um número cada vez menor de trabalhadores, com mais escolaridade.

Além disso, para alcançar um crescimento econômico anual de 7%, indispensável para um aumento razoável nas taxas de emprego, alegam ser necessário ter condições de investir nas atividades produtivas cerca de 25% a 30% do PIB. Reconhecem, mais uma vez, que o governo Lula está herdando uma taxa de poupança privada que caiu para 17% a 18% do PIB, e uma taxa de poupança estatal negativa. E capitulam totalmente a esse quadro, afirmando ser quase impossível alcançar as taxas de investimento necessárias para o Brasil voltar a crescer.

A tudo isso somam um cenário internacional bastante negativo. Encolhimento do comércio internacional, queda do ritmo de crescimento econômico na maioria dos países, crise das bolsas de valores, constrangimentos aos créditos bancários, redução dos investimentos diretos, e fraudes, concordatas e falências de grandes corporações transnacionais conformam um cenário que se negavam a enxergar antes, nada favorável para superar as vulnerabilidades externas brasileiras, centradas principalmente nas dependências financeiras e tecnológicas.

Assim, o que tais pensadores apresentam é um círculo de aço. Diante disso, como fazer para que a economia brasileira volte a criar milhões de empregos? Como elevar a poupança interna, pública e privada, a 25% ou 30% do PIB, e aumentar a taxa de investimentos, para crescer 7% ao ano? Como reduzir as vulnerabilidades externas brasileiras, diante do quadro mundial adverso? Em outras palavras, como escapar desse círculo de aço, ao qual o governo FHC nos prendeu?

FHC, Malan e outros economistas e políticos movidos a neoliberalismo têm repetido que nossa única saída consiste em reforçar o círculo de aço. Algumas administrações públicas estaduais e municipais acreditaram nisso e adotaram como política exclusiva os subsídios e incentivos à atração de empresas e à construção de grandes projetos de infra-estrutura. Entraram na guerra fiscal, criaram alguns núcleos de modernidade e riqueza e geraram alguns milhares de empregos. Ao mesmo tempo, destruíram algumas dezenas de milhares de outros empregos, atraíram outras dezenas de milhares de desempregados, perderam receitas, não puderam investir em infra-estrutura urbana e viram surgir novos cinturões de miséria. Reforçaram o círculo de aço, mas agravaram ainda mais suas disparidades.

Nessas condições, um dos grandes desafios do governo Lula, nos próximos seis meses e nos restantes quarenta e dois de seu mandato, consistirá justamente em escapar desse círculo de aço. Não poderá destruí-lo, já que não há condições, nem está em pauta, a nacionalização das grandes corporações capitalistas, modernas e competitivas, que hoje dominam a economia brasileira. Mas terá que romper com os constrangimentos que ele impõe à reconstrução do país, renegociando o contrato que existe com tais empresas.

Com o poder do Estado, poderá convencê-las a redirecionar sua produção fundamentalmente para o mercado externo. São elas que possuem competitividade para agregar ainda mais valor a seus produtos e disputar com sucesso o mercado internacional. E com o poder de Estado, atender e reforçar o mercado doméstico através do incentivo às médias, pequenas e micro empresas, inclusive da chamada economia informal, em processo de destruição pela competição daquelas grandes corporações.

Pode criar, assim, uma certa divisão de trabalho entre o antigo modelo corporativo, que não pode ser destruído ou modificado por simples decretos administrativos, e um novo modelo democrático e popular, de milhões de empresas que hoje estão agrilhoadas pelo círculo de aço das corporações, mas podem dar uma contribuição inestimável para a retomada do crescimento econômico e para a criação de um novo modelo de desenvolvimento econômico e social.

Para acreditar na viabilidade desse caminho, basta investigar como resistem e sobrevivem os milhões de brasileiros que produzem nas empresas de quintal, nos “focinhos de porco”, nas empresas solidárias, nas unidades familiares rurais, nas empresas comunitárias, nas cooperativas de produtores. Não é tão caro dar-lhes as condições mínimas para expandir sua produção e gerar um novo ambiente econômico, já nos primeiros seis meses, inclusive através das políticas de combate à fome e à miséria. E também basta lembrar da antiga e esquecida lição do mestre Adam Smith, para quem a riqueza é gerada pelo trabalho e não pelo dinheiro.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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