Praga pega

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Praga pega, n. 275, 15 dez. 2001.

 

 

A cada dia que nos aproximamos de 2002, mais estreita fica a margem de manobra do governo. O projeto de mudanças na CLT talvez tenha sido a sua derradeira iniciativa de sucesso – um sucesso tão custoso e desgastante que
até mesmo seus aliados duvidam que tenha valido a pena. E, para complicar o ambiente, o Planalto começa a enfrentar ações não apenas dos oposicionistas, mas também de sua base parlamentar, que entram em choque com suas políticas dominantes.

Esse é o caso do reajuste da tabela do IR e do aumento do salário mínimo. Segundo as notícias correntes, a equipe econômica está batendo de frente com as propostas que parecem predominar no Congresso (20% de redução na tabela do IR e salário mínimo de R$ 200,00). Desconsiderando a propensão dos próprios aliados, em função das exigências do novo momento político, aquela equipe assegura que só concordará com a redução do IR e com o aumento do mínimo se os parlamentares indicarem a fonte das receitas para cobrir as novas despesas.

Embora o governo FHC sempre tenha resvalado para uma tecnicalidade suspeita – pode-se mexer em tudo, fundos de pensão, emendas dos parlamentares para estados e municípios, contribuição dos inativos etc., menos no dinheiro destinado a pagar os juros e serviços da dívida externa ou nos débitos dos grandes devedores -, o principal problema político consiste em que o ministro Malan tende a ficar cada vez mais falando sozinho na defesa inglória das políticas governamentais.

Todos, ou quase todos os políticos que se encontram na base do governo, sentem-se compelidos a defender propostas populares como condição para disputar com chance as eleições de 2002. Isso é válido tanto para candidatos a deputados estaduais e federais, senadores e governadores, quanto para candidatos à presidência. E como propostas realmente populares não fazem parte do cardápio do governo FHC, antes pelo contrário, isso deve aumentar o fosso entre o apoio fisiológico ao Planalto e o discurso para o povão. Assim, enquanto a equipe econômica de FHC terá que se desdobrar para manter intocados os dogmas que criou, grande parte do governo já ensaia um discurso diferente.

Nessas condições, a oposição que fique alerta. Na batida em que estão certos inquilinos da aliança dominante, jogarão pesado para fazer com que o povão acredite que todos os oposicionistas, em particular os de esquerda, têm muita coisa do PFL. E praga, se não houver cuidado, pega.

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