Por que o tiroteio?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Por que o tiroteio?, n. 295, 11 mai. 2002.

 

 

Às vezes me pergunto por que tanto tiroteio dentro do grupo que se instalou no poder em 1994? Se a economia vai bem, conforme 10 em cada 9 ministros de FHC; se a situação social melhorou, como jura a Comunidade Solidária; se o governo vai vencer mais esta eleição, como afirmou o ministro Celso Lafer; o que estará ocorrendo nos subterrâneos desse grupo para que, como canibais, estejam comendo o fígado uns dos outros?

Não esqueçamos que esses tiros já atingiram vários deputados e senadores, a exemplo de ACM e Jader Barbalho, derrubaram vários ministros, abateram Roseana em pleno vôo e, agora, desferem um petardo no coração do próprio governo para, de rebote, atingir o candidato tucano. Tudo a partir dos ninhos dos ocupantes do poder, embora o ministro Paulo Renato reclame de “ninguém discutir propostas é só ficar jogando dossiês nas ruas”. Ninguém quem, cara pálida?

Cá com meus botões, fico pensando nas possíveis hipóteses. Suponhamos que realmente a economia vá bem e o Brasil esteja prestes a iniciar um novo ciclo de crescimento. Neste caso, a disputa pode estar estritamente dentro das regras do mercado: os vários grupos apenas derrubam competidores para abocanhar melhores segmentos.

Suponhamos, porém, que não haja perspectiva real da economia crescer e criar riqueza nova, mas seja possível mantê-la sob controle, de acordo com as receitas do FMI. Neste caso, em que a riqueza se mantém congelada, a disputa se explica pela voracidade dos aventureiros assaltando a riqueza antiga e os perdedores esperneando. A mão invisível do mercado nem sempre é madrasta apenas com os pobres.

Suponhamos, ainda, que os sinais negativos da economia norte-americana, junto com os preços erráticos do petróleo, os indicadores pessimistas das exportações, a renitência dos índices inflacionários e dos juros, a queda nas vendas, o aumento do desemprego, a especulação dos financistas globais etc etc, estejam apontando o caminho da Argentina, apesar do Brasil ser o Brasil. Aí, já não se trata nem mais de repartir, como hienas, a riqueza congelada. Trata-se de triturar os ossos e fugir antes dos urubus disputarem os restos.

Se esta hipótese for a mais próxima da realidade, isto explicaria melhor tanto as medidas de contingência dos bancos internacionais, quanto o recrudescimento do canibalismo no próprio ninho tucano. Os riscos eleitorais não passariam de pretexto para a pirataria generalizada.

Suponhamos, por fim, que a maquinação seja do próprio tucanato para explodir sob controle balões venenosos, impedindo que surjam inesperadamente no auge da campanha e causem estragos irreversíveis à candidatura oficial. Será uma prova a mais da podridão do “reino”. O pior é que, seja qual seja a hipótese, muito ricochete vai atingir o povão. E o trabalho para reconstruir os escombros deixados pelos atuais detentores do poder será, certamente, bem maior do que a suposição mais pessimista.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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