Por falar em mudanças

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Por falar em mudanças, n. 350, 14 jun. 2003.

 

 

Parece haver um sentimento generalizado de que se tornou premente introduzir mudanças na política econômica. Fala-se principalmente em reduzir os juros. Complementarmente, afirma-se a necessidade de investir na produção, romper os gargalos infra-estruturais, ampliar as linhas de crédito, criar empregos e redistribuir a renda.

Essa pauta, embora justa, peca pela generalidade. Tomemos a política de juros, tão execrada por ser abusivamente recessiva. O que significa mudar a política de juros? Exclusivamente a redução das taxas estabelecidas pelo BC? Se for isso, como supõe o senso comum, deixaremos a salvo os juros reais praticados na economia, que não estão atrelados, a não ser simbolicamente, às taxas do BC, e são um dos componentes da inflação que se procura atacar.

Da mesma forma, será omitido o fato de que grande parte da inflação atual é causada pelo componente político de “precificação do risco Lula”, do período anterior às eleições, componente inflacionário que resiste baixar. Aliás, o mesmo tipo de “precificação” que leva o sistema financeiro a praticar juros superiores a 150% ao ano, elevando os custos da produção, ou seja, a inflação, e jugulando o crescimento econômico.

Nessas condições, a simples redução da taxa Selic pelo Copom talvez seja a menos importante das medidas a serem adotadas para mudar a política de juros. Sem que essa medida seja acompanhada do desmonte dos mecanismos que permitem à banca cobrar “legalmente” aquelas taxas de super-agiotagem, da redução das dívidas que estão atreladas ao dólar, do alongamento dos prazos dos empréstimos, da utilização de ferramentas econômicas que evitem ou minimizem a ação dos “capitais de motel” e da construção de um sistema capaz de irrigar os setores produtivos com créditos baratos, principalmente as médias, pequenas e micro empresas, a redução da taxa Selic não passará de paliativo.

Outro exemplo é o da política de investimentos na produção. Com uma taxa nacional de poupança tão baixa, aonde obter capitais para investir? Depois, se os investimentos forem direcionados para os setores produtivos dinâmicos, o que acontecerá realmente? É quase certo que poderemos ter crescimento do PIB, mas certamente não teremos aumento significativo das taxas de emprego, nem redistribuição de renda, já que tais setores são redutores de mão-de-obra. Por outro lado, como são setores importantes para incrementar as exportações e melhorar a balança externa, também terão que ser contemplados em qualquer política de investimentos.

Em outras palavras, procuro apenas reiterar que não podemos mais ficar nas generalidades. Se há um sentimento geral de mudanças, ele deverá ser acompanhado da vontade de propor e discutir políticas concretas. Discussão que parece estar faltando na amplitude necessária.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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