Por falar em estratégias (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Por falar em estratégias (1), n. 479, 17 dez. 2005.

 

 

O governo Lula tem tido pela frente várias dificuldades para realizar suas políticas assistencialistas e desenvolvimentistas, quanto mais reformas de cunho democrático-popular. Primeiro, a representação parlamentar efetivamente de esquerda é minoritária no parlamento, um dos poderes do Estado brasileiro. Segundo, o papel que o poder judiciário desempenha no Brasil é incontestavelmente retrógrado, apesar das exceções à regra, existentes em qualquer situação. Em terceiro lugar, o aparato do governo, do parlamento, do judiciário e dos demais órgãos permanentes do Estado é composto fundamentalmente por uma burocracia, cujos interesses corporativos estão acima de qualquer outra coisa.

Na verdade, temos no Brasil um Estado Frankenstein, pseudodemocrático, estruturado paulatinamente pelas velhas e novas oligarquias, com o intuito de servi-las, não ao povo. Com o correr do tempo, e em virtude das lutas travadas pelos trabalhadores e pelo povo brasileiros, essas oligarquias viram-se obrigadas a abrir frestas em suas estruturas de dominação, e permitir uma crescente participação democrática em algumas esferas.

A participação de socialistas e comunistas em esferas executivas de poder no Brasil é fenômeno recente, de não mais do que 25 anos. Até o final da década de 1970, excluindo-se aqueles considerados reformistas, parte considerável da esquerda socialista e comunista supunha impossível esse tipo de participação, pelo histórico de regimes ditatoriais e repressivos que se sucederam após a proclamação da república.

Havia aí um certo consenso de que, somente quebrando o Estado, construído pelas oligarquias, antes latifundiárias e, depois, capitalistas, e construindo um Estado de novo tipo, seria possível realizar as reformas estruturais reclamadas pelas classes populares do país. O que não havia eram estratégias comuns para concretizar aquilo que se chamava revolução brasileira. E, de quebra, as dissensões táticas eram constantes e profundas. De modo tal que jamais as forças políticas socialistas e comunistas conseguiram, nem mesmo nos momentos de crise profunda do país, conquistar as grandes massas populares para a idéia da revolução.

A exaustão e fim da ditadura militar, seguidas das conquistas democráticas dos anos 1980, incluindo aí a fundação do PT e a legalização dos partidos socialistas e comunistas, a Constituição de 1988, a conquista de governos municipais e estaduais por esses partidos “malditos” e a quase conquista do governo federal em 1989, não só abriram, como impuseram para a esquerda brasileira a necessidade de adotar uma estratégia em que a destruição do Estado Frankenstein saia de sua pauta.

A vitória de Lula, em 2002, foi a demonstração cabal de que as grandes massas da população brasileira acreditavam seriamente na possibilidade de reformar o Estado por dentro, e colocá-lo a seu serviço. As dificuldades do governo Lula têm levado alguns a supor que essa estratégia faliu e que já é possível voltar à antiga. Será?

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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