Por falar em crescimento

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Por falar em crescimento, n. 371, 08 nov. 2003.

 

 

Chego da China no momento em que começa a se difundir que o Brasil retoma seu crescimento econômico. Lá, ao contrário, onde voltei a assistir ao espetáculo continuado do crescimento, a discussão está centrada nas críticas ao crescimento demasiadamente rápido. Apesar de parecer paralisada pela SARS, entre abril e julho, a economia da China deve ter um incremento de 8,5%, este ano, tencionando a infra-estrutura e os preços das matérias-primas e transportes.

Os problemas enfrentados atualmente pelas economias brasileira e chinesa são, portanto, diferentes. No entanto, a experiência chinesa (assim como a indiana) poderia nos fornecer algumas pistas de como desenvolver-se num mundo conturbado, no qual, segundo alguns, não há como salvar-se quando ocorrem choques externos. Vale a pena lembrar que a China (assim como a Índia) passou incólume pelas turbulências mundiais que abalaram os chamados emergentes, em 1997 e 1999.

Em primeiro lugar, a China baseia seu desenvolvimento em altas taxas domésticas de poupança e investimento. Embora tenha políticas agressivas de atração de recursos externos (ombreia-se com os EUA na captação de capitais externos), tais recursos representam apenas 10% a 15% dos seus investimentos totais. Por outro lado, ela exerce um forte controle sobre os capitais de curto prazo e possui políticas claras sobre os fluxos e áreas de investimento dos capitais de longo prazo (indústrias tecnologicamente avançadas, ou voltadas para as exportações, ou com grande densidade de emprego).

Em segundo lugar, suas instituições financeiras têm seu principal lastro na poupança doméstica, e seus empréstimos estão voltados fundamentalmente para a construção da infra-estrutura, para o desenvolvimento das atividades produtivas e, agora, também para o consumo (principalmente de moradias). Nessas condições, apesar dos créditos podres herdados do período anterior a 1980, o sistema financeiro chinês não foi afetado pelos choques externos e está conseguindo reformar-se com segurança.

Em terceiro lugar, a ampliação e solidez do mercado interno chinês reduz a dependência externa do país, ao mesmo tempo que lhe permite intensificar a presença no mercado mundial e aumentar suas reservas internacionais. Em 2003, o comércio externo da China deve chegar perto de 700 bilhões de dólares, enquanto suas reservas superam os 380 bilhões de dólares (sem contar as reservas da Região Especial de Hong Kong).

Em outras palavras, a China tem se mantido imune às crises internacionais porque baseia seu desenvolvimento na poupança e nos investimentos próprios (o que não exclui a atração de capitais externos), controla os fluxos desses capitais externos, direcionando-os para atividades produtivas, mantém altas reservas internacionais e reduz ao máximo sua dependência externa. Não precisa, pois, de capitais voláteis, que a obrigariam a trabalhar com altos juros (para atraí-los) e altos superávits primários (para garantir os pagamentos). Não será qualquer espirro na Turquia ou mesmo no Japão que fará sua macroeconomia desandar.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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